Aceitar a proposta de incorporar o Psol à Federação PT/PCdoB/PV seria, na nossa avaliação, um erro político grave.
Ela poderia mesmo tumultuar o processo já consolidado de unidade política na coligação eleitoral deste ano, capaz de derrotar a extrema direita – não sem grandes dificuldades.
A unidade na diversidade entre partidos autônomos, que conservam sua identidade programática, é o que lastreia a base social e garante votos capazes de derrotar o protofascismo.
No PSOL, uma única de suas muitas correntes definiu apoio à proposta petista, a Revolução Solidária. Ela pede “processo aberto, democrático, com as bases e formulação coletiva” – e diz que o fez “em todos os estados”.
Ora, isso leva tempo. Para uma corrente pode ser rápido, mas para o partido todo, com 290 mil filiados, isso não pode ser feito em um mês, premido pelo calendário eleitoral.
De imediato, várias correntes, lançando mão de sólidos e respeitosos argumentos, se unificaram na defesa da independência e autonomia do partido, com vistas à reunião do Diretório Nacional de 7/3.
A unidade da esquerda no apoio eleitoral a Lula não pode ser sacrificada pelo fórceps de uma federação liderada pelo PT, com sua sofreguidão hegemonista.
O PSOL nasceu com vocação de grandeza. Nitidez programática, zelo ético e autonomia política – sem sectarismo ou submissão – são suas marcas de nascença. Isso nunca limitou a flexibilidade tática nas coligações eleitorais contra a direita, mas desautoriza qualquer proposta de Federação que lhe tolha a independência estratégica.
Ao contrário da intriga dos inimigos, o PSOL nunca foi um “puxadinho do PT”. Nossas diferenças com o petismo existem, jamais foram artificiais e são bem compreensíveis. Fazem parte do projeto da esquerda socialista, cujo perfil estratégico vai muito além dos limites autoimpostos pelo PT, em função da chamada governabilidade de conciliação. Entendemos que esta, em um governo policlassista, deve ser inevitavelmente de tensionamento.
Nunca nos deixamos levar pelo antipetismo reacionário, um “patrimônio” da extrema direita. O PSOL jamais foi obstáculo para que o PT pudesse chegar ao governo. Tivemos brilhantes e combativos candidatos à presidência (Heloisa, Plínio, Luciana e Boulos), mas votamos em Lula, Dilma e Haddad no segundo turno.
Na última eleição, diante da ameaça bolsonarista, votamos e fizemos campanha, desde o início, para garantir a vitória (apertada) das forças democráticas.
Sempre estivemos juntos no dia a dia das lutas contra o golpismo continuado do conservadorismo reacionário.
A unidade contra a extrema direita é necessária. Mas subordinação a um projeto hegemônico, abrindo mão da postura crítica, não pode ser nosso caminho.
A Federação, no tempo e nos termos em que está sendo proposta, impõe ao partido escolhas eleitorais em vários estados que contrariam nossos princípios e visão de mundo.
No Rio de Janeiro, por exemplo, o PT apoia o PSD de Eduardo Paes, o candidato ligado ao grande empresariado, às empreiteiras, à lógica das PPPs e da privatização dos serviços urbanos. E ao fisiologismo caciquista e bolsonarista do clã Reis, além da tolerância com as milícias – assassinas de Marielle e Anderson! – como “mal menor”. Um contraponto total a tudo que é a tradição do PSOL.
Essa é uma das razões pelas quais nós, do Rio de Janeiro, colégio eleitoral onde o partido elege parte significativa de sua combativa bancada federal, nos somamos aos que resistem contra a diluição que nos ameaça. E em defesa do PSOL independente.
PS: A superação da cláusula de barreira passa pela autonomia, a independência e a combatividade do partido. Nestas eleições, nossa bancada vai crescer na Câmara dos Deputados e vamos recuperar nossa representação no Senado.
Em 2022, o PSOL já conseguira alcançar os 2,5% exigidos para a superação da cláusula agora em 11 estados (SP, RJ, RS, PA, DF, AP, CE, PE, SE, MG, SC). A Federação com a REDE acrescentou outros três (AM, ES e RR). Se todos se mantiverem fiéis às nossas decisões democráticas e se empenharem na disputa que se avizinha, avançaremos.
Em frente!
Mandato Chico Alencar (PSOL-RJ)
Rio, 2 de março de 2026