Sinais dos tempos

Casa de madeira quase inteiramente submersa com as enchentes. Para fora da água apenas o telhado.

*(Nota da Comissão para Ecologia Integral e Mineração da CNBB em solidariedade às pessoas e comunidades do Estado do Rio Grande do Sul)

“Hipócritas, sabeis interpretar o aspecto da terra e do céu e,
entretanto, não sabeis discernir esta época? E por que não julgais
também por vós mesmos o que é justo?” (Lucas 12,56).

A Comissão para Ecologia Integral e Mineração da CNBB solidariza-se, profundamente, com as pessoas e comunidades do Estado do Rio Grande do Sul, com 1,3 milhão de desabrigados, mais de 100 famílias em luto pelo falecimento de seus entes queridos, 128 desaparecidos, 350 municípios devastados pelas enchentes. Há ainda a dramática perda de animais domésticos e silvestres, de matas e lavouras, da destruição de casas, de bens domésticos, além do imenso impacto na saúde psíquica e emocional dos atingidos. Nos somamos aos esforços de atendimento às necessidades emergenciais.

Tudo está interligado em nossa Casa Comum. Por isso, é preciso sabedoria para ler os sinais dos tempos. Desde a década de ’70, cientistas nos avisavam que o Aquecimento Global produziria impactos inimagináveis nos seres vivos e no planeta. E que era preciso mudar os rumos de uma civilização baseada na queima de combustíveis fósseis e na devastação do meio ambiente. Portanto, nada do que hoje acontece, deixou de ser avisado e previsto.

Porém, o modelo civilizatório não mudou. Continua emitindo gases de efeito estufa cada dia mais, expandindo monocultivos e devastando florestas. Logo, o Aquecimento Global cresce. Os fenômenos extremos se multiplicam, com ondas de calor, nevascas, chuvas torrenciais, secas, derretimentos das geleiras, elevação do nível dos mares, extinção de espécies, assim por diante. Se as petroleiras já decidiram que vão elevar o consumo de petróleo até 2050, de que adiantam todos os outros esforços?

Falemos claro: quem decide o rumo de um progresso que privilegia uma minoria rica, que concentra mais de 50% da riqueza de nosso planeta, são as petroleiras e um estilo de neoliberalismo colonialista e predador. Enquanto isso, os poderes que deveriam defender os seres humanos e não humanos e o planeta Terra, se submetem a essa hegemonia.

No Brasil, as mudanças na legislação ambiental, a invasão dos territórios comunitários e indígenas, a derrubada das florestas para expansão da criação de gado, cultivo em larga escala de soja, milho e eucalipto, a ação das mineradoras e do garimpo, formam a tempestade perfeita para o que hoje acontece no Rio Grande do Sul, onde as alterações radicais do Código Ambiental em 2019 foram importantes cúmplices das catástrofes que hoje acontecem.

Diante de tudo isso, nosso querido Papa Francisco tem convocado a humanidade a uma conversão integral (LS 216) para enfrentar essas mudanças. Até aqui, no entanto, as reações têm sido insuficientes. São louváveis e indispensáveis todas as manifestações de solidariedade ao povo do Sul: no entanto, elas não podem ser apenas uma “onda caridosa” momentânea! A ciência e a sabedoria dos povos nos dizem que estes fenômenos vão se repetir, cada vez mais, com maior intensidade, à medida que a temperatura global subir, se não atuarmos decididamente nas causas dos problemas socioambientais. Como disse Gandhi “a natureza pode suprir todas as necessidades da humanidade, menos a sua ganância”. Tudo isso nos indica que estamos colhendo o que plantamos, e as piores consequências recaem, sobretudo, na conta dos mais vulneráveis.

Portanto, é preciso reagir, pois a pior hipótese é a imobilidade indiferente ou negacionista! Essa não nos pertence. Autoridades mundiais e locais, religiões, ciência, militantes, movimentos populares, povos tradicionais, todos somos convidados a dar-nos as mãos e buscar novos caminhos, que amenizem tantos sofrimentos e nos permitam sonhar e construir outros mundos possíveis, de justiça e paz. Como escreveu o Papa Francisco, na encíclica Laudato Si’, rezemos: “Deus dos pobres (…) curai a nossa vida, para que protejamos o mundo e não o depredemos, para que semeemos beleza e não destruição. Tocai os corações daqueles que buscam apenas benefícios à custa dos pobres e da terra”.

Livramento de Nossa Senhora, 08 de maio de 2024.

Dom Vicente Ferreira

Presidente da Comissão para Ecologia Integral e Mineração

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CARTA ABERTA AO COMANDANTE DA MARINHA SOBRE A REVOLTA DA CHIBATA

A inscrição do nome de João Cândido Felisberto, líder da Revolta contra a Chibata, em 1910, no Livro de Heróis da Pátria, já aprovada no Senado (PL 340/2018), está em análise na Câmara dos Deputados, onde tramita (PL 4046/21).

V. Exa. entrou no debate, enviando uma carta ao presidente da Comissão de Cultura, deputado Aliel Machado (PSB/PR). É legítimo, a Casa do Povo tem que ser sempre democrática.

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