Desafios da comunicação na disputa da sociedade

Foto: Dark Stream/Agência Pública

Com trechos dos livros “Engenheiros do caos”, de Giuliano Da Empoli, e a “A rebeldia-se tornou-se de direita?”, de Pablo Stefanoni. Foto: Dark Stream/Agência Pública. Por Thiago Vilela.

Vocês já perceberam a quantidade de filmes que falam sobre um futuro distópico? Parece bobagem, mas uma pesquisa de 2012 (Ipsos Global Public Affairs) revelou que 15% da população mundial acreditava que presenciaria o fim do mundo. Na Europa, e esse é um dado de 2023, 71% das pessoas acreditam que o futuro é terrível. Vivemos numa era em que é mais plausível acreditar no fim do mundo do que num futuro melhor.

Decidi começar estas reflexões falando sobre filmes porque a cultura de um tempo influencia e ao mesmo tempo é reflexo do sentimento desta nova geração de jovens. Abro um parêntese para lembrar que no Brasil, hoje, 66% da população tem até 44 anos (IBGE, 2023). São pessoas que não viveram a Ditadura, eram crianças na década de 80 ou nem tinham nascido. Para elas, democracia é eleição a cada dois anos, pouquíssima participação popular, compra de voto, escândalos de corrupção.

A eleição do PT e de outros governos progressistas, na América Latina, que conquistaram o poder no começo dos anos 2000, terminou com parte da população se sentindo traída, como é o caso do próprio PSOL, que nasce desse descontentamento. A palavra-chave é desesperança.

E é nessa mistura de falta de esperança, problemas na economia, descrédito na política, mídia e oposição golpista (e uma série de outros fatores) que nascem as manifestações de 2013. Pesquisa de 2014 (Nupps) revelou que, naquele momento, 84% da população tinha pouca ou nenhuma confiança nos partidos políticos. Com certeza cada um tem uma opinião sobre junho de 2013, por isso não quero trazer aqui uma discussão sobre este processo, mas quanto ao resultado. Diante da falta de radicalização democrática da esquerda (não saiu nem a tal reforma política, prometida pela Dilma), é notório que quem consegue aproveitar desse momento de ebulição para crescer politicamente é a extrema-direita.

Surge naquele momento uma nova forma política, que Dá Empoli descreve como “moldada pela internet e novas tecnologias, baseada no populismo e no ódio”. E se tem uma coisa que funciona, na internet, é explorar a emoção. É nessa época que a direita usa termos como ‘politicamente correto’, ‘patrulha ideológica’, ‘escola sem partido’ e tantos outros ganham força, criando a narrativa de que as pessoas estavam perdendo a sua liberdade e sendo perseguidas por causa da esquerda e do ‘identitarismo’.

ANTISSISTEMA?

Travestida de antissistema e contra ‘tudo que tá aí’, movimentos como o MBL crescem rapidamente e ocupam um espaço inédito na política – inclusive no parlamento. E o problema é que a promessa central desse novo tipo de populismo é a ‘humilhação dos poderosos’, e ela já se realiza quando eles chegam no poder. Um dos panfletos a favor do Brexit, que é um ótimo exemplo desse fenômeno, trazia os rostos satisfeitos do primeiro-ministro e do chanceler, acompanhados do slogan “Acabe com a vontade deles de sorrir. Vote ‘Leave’ (sim, para a saída do bloco europeu)”.

Não foi de uma hora para outra que o Trump, um bilionário, e Bolsonaro, um político do centrão há mais de 20 anos na Câmara, passaram a serem vistos como porta-vozes desse sentimento antissistema. Foram anos em que diariamente a mídia tradicional caía, intencionalmente ou não, em todas as suas provocações. Sem os gritos dos comentaristas políticos do ‘establishment’ jornalístico e da esquerda – que estava no poder – seria difícil para Trump e Bolsonaro virarem símbolo da raiva contra a ‘casta política’. Com a nossa ‘ajuda’, eles convenceram a população que votar neles virou um voto de protesto.

Nesse cenário, a ignorância, erros de português e gafes, tão exploradas pela imprensa e pelos adversários políticos, acabam humanizando figuras como Bolsonaro e fazendo com que eles sejam percebidos como próximos do povo e distantes da casta política. Num mundo de políticos ‘sabonete’, a espontaneidade dessas declarações é vista como autenticidade e, de certa forma, honestidade.

Mas só isso, evidente, não explicaria o sucesso eleitoral da extrema-direita. Aqui entra uma revolução tecnológica (e, muitas vezes, ilegal) fundamental, que só veio à tona anos depois, com a revelação do escândalo do Facebook e Cambridge Analytica.

MADE IN USA

Resumidamente, a Cambridge Analytica comprou/teve acesso a informações pessoais de usuários do Facebook e usou essas informações para criar um sistema que permitiu influenciar as escolhas dos eleitores nas urnas.

Até certo ponto, isso é algo que todo político sempre fez. O panfleto que você distribui numa comunidade carente tende a ser diferente do panfleto do bairro de luxo, senão o seu material não vai dialogar com os problemas da população local. A questão é que isso foi feito em escala industrial, e a um custo muito mais baixo. Os eleitores foram divididos em categorias e cada um recebeu uma mensagem personalizada, que foi sendo aperfeiçoada através de testes em tempo real, até chegar na melhor versão. Não eram nem comunicadores que faziam as mensagens, eram físicos e cientistas especializados em dados.

Voltando ao exemplo do Brexit, se você era um eleitor defensor dos animais, por exemplo, recebia uma mensagem sobre as regulamentações europeias que ameaçam os direitos dos animais, para te convencer a votar “Leave”. Se você era um caçador, recebia uma mensagem sobre as regulamentações europeias que, pelo contrário, protegiam os animais, e por isso deveria votar “Leave”. Como as mensagens são segmentadas, não há risco de perder apoio de ninguém. Se, eventualmente, alguma contradição é revelada, é facilmente negada pelo político.

Nos EUA, Trump criou uma maneira de desestimular os democratas de irem às urnas. Liberais que apoiaram Bernie Sanders, por exemplo, foram bombardeados por mensagens que ressaltavam as ligações de Hillary com a comunidade financeira e os negócios obscuros da fundação do marido; às mulheres jovens, a campanha não parou de lembrar dos escândalos sexuais do marido, apresentando Hillary como cúmplice de um marido pervertido.

Isso para falar só da campanha oficial, porque além disso havia milhares de fake news compartilhadas por blogs, sites e páginas de extrema-direita. Aqui no Brasil, todos lembram o que se tornou o Whatsapp na época e o trabalho do Gabinete do Ódio.

Em “Engenheiros do caos”, o autor destaca que é possível tirar pelo menos duas conclusões disso tudo. A primeira é que uma máquina superpoderosa, criada originalmente com fins comerciais, para atingir com precisão cada tipo de consumidor, irrompeu na política. O Facebook, por sua vez, como estava lucrando com a situação, não teve interesse nenhum em impedir abusos. Pelo contrário, como seu modelo de negócios funda-se no fato de não ser um órgão de informação, lavou as mãos.

E o Facebook não é o único culpado. O mandato acompanhou de perto o caso Gabriel Monteiro, que ganhava dinheiro explorando o algoritmo do Youtube. Enquanto produtores de conteúdo de esquerda e até parte da mídia tradicional têm sofrido para pagar as contas, quem produz desinformação e conteúdo sensacionalista consegue mais alcance, engajamento e, logo, mais receita publicitária. Isso cria um sistema que se retroalimenta, estimulando um crescimento contínuo da extrema-direita.

Em segundo lugar, as campanhas eleitorais, cada vez mais, se tornam guerras entre softwares e cientistas da informação. Ganha quem multiplica e mobiliza seus apoios enquanto desmobiliza as bases do adversário. Essa partida ainda não substituiu o jogo tradicional da política por completo, mas já impacta visivelmente a nossa sociedade.

Antes, quem quisesse criar um consenso, tinha que se dirigir ao eleitor médio com mensagens ponderadas. Agora, pelo contrário, o objetivo é inflamar as paixões do maior número possível de grupos. A máquina de propaganda permite que campanhas contraditórias existam em paz, sem nunca se encontrarem. Os efeitos disso na sociedade, a longo prazo, são imprevisíveis, mas a tendência é um aumento contínuo da polarização.

SAÍDAS

Ainda não consegui ler o “Alfabeto das colisões”, do Safatle, mas, pelo que vi da repercussão do livro, tendo a concordar que, para avançarmos enquanto campo político, temos de assumir que estamos perdendo (‘a esquerda morreu’, como ele usa, me parece exagerado… mas entendo o uso). Precisamos abandonar as certezas confortáveis, mas enganosas, e aceitar que as velhas lógicas políticas que fizeram sentido nas últimas décadas não funcionam como antes. Como disse Woody Allen, “os maus sem dúvida compreenderam algo que os bons ignoram”.

Elegemos Lula em 2022, mas o PT segue tendo como objetivo ‘gerir bem’ o capitalismo, ao invés de promover transformações sociais. A discussão recente da regulamentação dos trabalhadores de aplicativo é um bom exemplo dessa lógica. O governo apresentou um projeto que, de fato, tem alguns avanços, mas me parece que só quem está satisfeito são as empresas, que vão ter segurança jurídica no país e seguir lucrando. Os trabalhadores de app são uma categoria dividida, que foi cooptada pela extrema-direita, mas não é por isso que o projeto é bom. Aliás, a narrativa que venceu entre os motoristas é a de que o governo é aliado dos apps e só está interessado em explorá-los ainda mais. Por si só, isso já seria suficiente para o PT rever sua posição – mas, pelo contrário, o governo está comemorando essa ‘vitória’ (e o PL tende a piorar no Congresso).

Acontece neste momento, nos EUA, a discussão de um projeto de lei que pode banir o TikTok do país, e Mark Zukerberg, criador do Facebook, já teve que se explicar ao Congresso sobre o escândalo da Cambridge Analytica. A União Europeia, ano passado, multou o Facebook em mais de 1 bilhão de euros por mau uso de dados dos usuários. Enquanto isso, o “PL das Fake News” está emperrado na Câmara há quase um ano.

Se não começarmos a enfrentar o domínio econômico e o poder das redes sociais, e desmontar este ecossistema da extrema-direita na internet, o cenário só vai piorar!

O Brasil é o 3º país que mais usa redes sociais no mundo (Comscore, 2023), ficamos conectados em média 4 horas e 8 minutos diariamente, enquanto a média mundial é de 2 horas e vinte e cinco minutos. Não existe mais uma ‘esfera pública’ em que todos estão expostos às mesmas informações, até o ritual de assistir o noticiário televisivo vem perdendo importância. Como dizia o ex-presidente do Google, Eric Shmidt, é cada vez mais raro ter acesso a conteúdos que não sejam feitos sob medida pelas plataformas.

Por fim, esta não será uma batalha que será vencida da noite para o dia. A extrema-direita está há mais de uma década construindo a realidade que vivemos hoje. Mas precisamos começar a travá-la, não dá para ignorar a realidade – senão seguiremos perdendo por W.O.

Como bem define Giuliano Da Empoli em seu livro: “Não existe projeto político vitorioso que não traga em si a vontade contagiosa de transformar a realidade. Em uma geração, os progressistas passaram de ‘torne seus sonhos realidade’ para ‘torne a realidade seu sonho’ (…) Se queremos reconstruir algo de bom, vamos precisar reinventar as formas e os conteúdos da política dos próximos anos”.

Compartilhe:

Facebook
WhatsApp
Twitter
Telegram
Email

Leia também:

sem título 1 prancheta 1

RESSUSCITA-NOS!

Páscoa é a linda história do Nazareno, o Deus feito gente, que veio ao mundo e nada guardou para si. Tudo, em Jesus, era destinado aos outros. Quando a morte chegou, para tomar seus bens, sua propriedade, nada encontrou para tomar, tudo já havia sido dado. Assim, foi vencida.

The Last Supper

LAVARMO-NOS OS PÉS, REPARTIR O PÃO

Jesus e os seus – estamos todos e todas convidados! – reúnem-se para a ceia. A sala abriga, a refeição congrega. Os inimigos estão à espreita, mas ali, naquele momento mágico, reina a Paz.

Rolar para cima