O ‘NÃO’ QUE É SIM À VIDA PLENA (Breve reflexão para crentes ou não)

Hoje, em milhares de comunidades cristãs do planeta, celebra-se o 1º domingo da Quaresma com o relato das tentações de Cristo no deserto (Lucas 4, 1-13).

Essa passagem do Evangelho, tão aguda, nos interpela: temos coragem de visitar, vez em quando, nosso “deserto interior”, intimidade onde habitam “demônios”, Deus (que é Amor) e nossa sincera busca de vida autêntica?

Gilberto Gil, em 1981, deu a linda senha musical: “Se eu quiser falar com Deus/ tenho que ficar a sós/ tenho que apagar a luz/ tenho que calar a voz/ (…) Tenho que ter mãos vazias/ ter a alma e o corpo nus/ tenho que aceitar a dor/ tenho que comer o pão que o diabo amassou”.

Os 40 dias de Jesus na solidão do deserto (“conduzido pelo Espírito”) – preparação para a vida pública, de ‘hosanas com ramos’ e cruz – são um chamamento à imprescindível viagem ao interior de nós mesmos.

No nosso caso, de criaturas “aceleradas” e prisioneiras de mesquinharias, 4 horas por mês ou mesmo 4 minutos por dia já servem. O importante é a recusa à tudo o que nos apequena, limita, obscurece a vida. E que nos “tenta” cotidiamente com a ideologia dominante do ganho, do “sucesso”, da autoafirmação vaidosa.

Os “nãos” de Jesus têm que ser também os nossos: “não” a transformar pedra em pão egoísta, da gula voraz, da fartura acumulada, da submissão ao reino das coisas, do prazer insaciável que só alimenta o ego; “não” à ânsia de poder, de mando vertical, do controle de tudo à nossa volta, do desejo imperial que elimina o que não se submete à minha vontade (inclusive em muitas igrejas); “não” à simplificação das soluções “mágicas”, confortáveis, que “resolvem” por nós o que é nosso dever enfrentar – inclusive os inevitáveis fracassos, as quedas, as derrotas (sociais, políticas, afetivas…).

Em 1959, Vinicius de Moraes escreveu o antológico poema “Operário em construção”, que descreve o processo de negação da alienação do trabalho, da exploração e da injustiça social por parte de um operário da construção civil “que erguia casas onde antes só havia chão”.

Pois é esse o sentido último de nossa “ida ao deserto”: despojados de tudo, reconhecer nosso valor intrínseco e o que traz dignidade à existência. Reencontrar quem é, mais que Senhor, nosso Guia Amoroso – rejeitando as seduções do mundo materialista do poder e do dinheiro, das aparências, da arrogância de “se achar”, da hipocrisia, das discriminações odiosas, da competição capitalista (que alimenta até guerras mortais).

Descubramos, na aridez, que o deserto é fértil!

Tim Petersen – Comunidade Católica Shalom

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