HÁ 60 ANOS, UM ENSAIO DE AUTOGOLPE(JQ ontem, JB hoje)

O presidente da República se dizia contra o sistema, embora já tivesse sido vereador, prefeito e governador. Sua campanha teve forte teor moralista, e o símbolo era uma vassoura. Eleito, parecia mais um delegado de costumes: proibiu biquinis e brigas de galo. Gostava de exibir gestos populares, como comer banana e sanduíche de mortadela em público. Colocava talco no paletó para parecer caspa. Cabelos desalinhados, costumava dizer frases fortes (em português castiço).

Qualquer semelhança com Bolsonaro – exceto pelo zelo com a língua pátria – não é só coincidência: Jânio Quadros foi um populista de direita e tinha fortes pendores autoritários.

Há exatos 60 anos, num 25 de agosto (Dia do Soldado), Jânio renunciou surpreendentemente ao cargo, enviando uma carta ao Senado e mencionando “forças terríveis” que estariam minando seu governo. Contava com a não aceitação pelo Parlamento, com pronunciamento dos militares, com sua manutenção na presidência, muito fortalecido. O tiro saiu pela culatra e o golpista de si mesmo, desconcertado, resolveu ir, por conta própria, para o exterior.

O Alto Comando Militar não aceitou Jango, o vice eleito, senão com poderes enfraquecidos, com a imposição do Parlamentarismo. Em 1964 os militares rasgaram de vez a Constituição, saíndo das suas “quatro linhas”, mas aí já é outra História (tenebrosa, aliás).

Bolsonaro tem pontos de aproximação com Jânio, só que é muito mais perigoso para o Brasil: seu projeto é de destruição (como já declarou e pratica), seu moralismo é de ocasião – sempre se locupletou das benesses como parlamentar; o empreguismo familiar, o “tratoraço” com o Centrão e a “propinavac” estão aí.

Mas, sobretudo, ao contrário de Jânio, a sanha autoritária de Bolsonaro tem lastro em setores das Forças Armadas, nas Polícias, em grupos milicianos e em agronegocistas, favorecidos pelo estímulo ao armamentismo crescente. Opera também com uma poderosa rede de ódio e fakenews no mundo digital, inexistente há seis décadas.

O que v. prefere? Um destrambelhado cultor do idioma, dicionarista, civilista e equivocado, ou um destrambelhado tosco, destrutivo, que vive instigando golpe?

JQ ou JB? O Brasil já teve e merece coisa melhor.

Charge publicada no blog do Kleber Teixeira

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