MAIS QUE RESISTIR: REEXISTIR!

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03 nov MAIS QUE RESISTIR: REEXISTIR!

O desafio foi lançado por Marcelo Freixo, ao fim da belíssima campanha de reencantamento pela política que ele liderou no Rio de Janeiro. Diz sobre a imensa tarefa social, política e humana que está à nossa frente, nessa época de crise de sentido: do socialismo, da democracia, da própria política. Até civilizatória. Ressignificar tudo isso, e nosso próprio destino, é urgente.

Para tanto, uma acurada leitura da realidade é imprescindível. As eleições municipais agora concluídas permitem um foco um pouco mais nítido, nesses tempos tão nebulosos. A partir de alguns debates preliminares, realizados tanto com a equipe do mandato quanto em uma conversa informal no gabinete do nosso deputado Glauber Braga, também do RJ, colocamos na roda de debates alguns pontos, visando o fundamental: a melhor qualificação de nossa atuação, a retomada da dimensão transformadora da política, o crescimento do nosso PSOL.

  1. O desencanto com a política chegou a níveis elevadíssimos. Ainda que as abstenções possam ser relativizadas em função de cadastros eleitorais muito antigos (no Rio, por exemplo, o último foi há 16 anos – muitos votantes, de lá para cá, faleceram, mudaram de domicílio ou atingiram a idade que os desobriga de votar), os votos nulos e em branco revelam o descrédito com os partidos – à esquerda e à direita – e a política institucional. Um grande vitorioso foi o “ninguém”, o que significa que qualquer “alguém” que tenha vencido não convenceu plenamente (ressalvado o fato de que um apoio total, unânime, nunca existirá, exceto como farsa totalitária).
  2. Depois de quase duas décadas do tucanopefelismo e do lulodilmopetismo, as forças políticas dominantes e as menores, que lhes são caudatárias, se igualam, no senso comum, que lhes devota igual descrédito. Nós sabemos das diferenças entre as duas eras – menores do que as que aspirávamos, é verdade – mas a percepção majoritária assemelha os antigos ‘polos’ da disputa nacional, de fato cada vez mais “peemedebizados”. O vazio do interesse político e o alheamento de enormes segmentos nos espreitam. Estas ainda foram eleições do interregno: o velho ainda não morreu, o novo ainda não surgiu. No cenário de descontentamento, a névoa dos caminhos permanece. Nela, avultam alguns personagens de perfil enganoso, supostamente “fora do eixo”, do ineditismo conservador e incerto – como Dória (PSDB, SP, contrariando FHC e outros ‘históricos’), Kalil (PHS, BH) e mesmo Crivella (PRB, Rio). Cunha, na cadeia, tem seus espectros perambulando por aí.
  3. Há um avanço conservador no Brasil, inclusive através de uma extrema-direita que se explicita e amplia seus espaços institucionais. Ela já existia antes, claro, mas agora está muito mais à vontade, com representação crescente no Legislativo e no Judiciário. A direita extremada ressuscita, com relativo êxito e muito ódio, fantasmas da Guerra Fria e da hipocrisia moralista contemporânea, como o anticomunismo, a “anarquia e a baderna”, a caracterização dos “antiCristos” (sobra até para o papa Francisco!), a “perversão” das mulheres e jovens, a “sexualização” infantil, o empoderamento dos bandidos (os sem colarinho branco, claro). Tivemos pouca capacidade de contestar junto à população esse ultraconservadorismo militante. Ousado, ele também forma tropas de choque e milícias, muitas vezes com o apoio de policiais e seguranças particulares, para intimidar e atacar ocupações, em especial de estudantes. Sua atuação nas redes sociais, agressivíssima, se expande.
  4. As novas regras eleitorais encaminhadas por Cunha/Rodrigo Maia reduziram à metade o tempo de campanha e geraram distribuição absolutamente desigual do tempo de rádio e TV, o que favoreceu ainda mais as grandes máquinas e o caciquismo, potencializado pelo velho conluio entre grandes partidos e legendas de aluguel. O fim do financiamento empresarial foi muito positivo, o dispêndio geral da campanha caiu à metade, mas algumas candidaturas continuaram com gastos milionários, originários do Fundo Partidário e de ilicitudes como o Caixa Dois.
  5. O declínio do PT foi indiscutível, e isso afetou a noção de esquerda em geral. Sobrou, em maior ou menor grau, para todo o chamado campo progressista. A narrativa do golpe do impeachment de Dilma sofreu um baque. À força da agenda conservadora nos costumes, na economia e na visão de sociedade somou-se a reiteração da “corrupção petista”, como se fosse a única ou inaugural vertente desse sistêmico e abominável “cupim da República”.
  6. A rejeição à simbiose da religião com a política decresceu, favorecendo o neopentecostalismo de resultados. Este não opera a fé como inspiração para a luta cidadã e plural por Justiça e Igualdade, ensinada desde o Concílio Ecumênico Vaticano II, nos anos 60 do século passado, mas como êmulo de um projeto político-partidário cruzadista e expansionista, de igreja interferindo na esfera do Estado. E com a autoproclamação da crença, até de neoconvertidos, como elemento eficiente de captação de votos. Isso não significa que o principal beneficiário dessa vertente regressista e obscurantista, o prefeito eleito do Rio, fará um governo de mero atraso e intolerância: ele governará com o amálgama de centro-direita e fisiologismo que já reuniu na campanha, em especial no 2º turno, mas imprimirá o continuísmo liberal-conservador de Paes. Ainda que tendo que manter os laços com seu eleitorado conservador e exortado para o medo, Crivella, é sagaz: não deverá afrontar a ruidosa diversidade carioca, o que lhe renderia oposição pesada e desgaste, logo de início (seus assessores advindos do campo da esquerda já devem tê-lo alertado para isso…).
  7. O governo temerário sai fortalecido para implementar seu projeto de Estado Mínimo e privatismo máximo: a PEC do corte de investimentos primários, a “reforma” política para deixar na cena pública apenas os partidos comprometidos com o establishment, as demais “reformas” de precarização de direitos trabalhistas e previdenciários, a repressão aos movimentos sociais, o controle e seletividade das investigações da corrupção sistêmica – que envolve muitos da cúpula do governo central e aliados estaduais.
  8. Felizmente, há também um contraponto animador à tendência reacionária: ainda que não vitoriosas eleitoralmente do ponto de vista majoritário, propostas progressistas, com defesa dos direitos sociais e das pautas identitárias, antirracistas, antipatriarcais, de democratização de base e da comunicação, de socialização dos meios de governar, despertaram parcelas importantes da população, em especial da juventude. Luzes no ambiente sombrio! A afirmação do protagonismo feminino resultou na eleição de várias vereadoras mulheres dentre as mais votadas, em diversas capitais, a maioria pela legenda do PSOL. Isto revelou que há campo para crescer, mesmo em conjuntura tão desfavorável.
  9. Ao contrário de épocas anteriores, as eleições municipais de agora não permitem uma clara antevisão das forças que irão preponderar nas eleições nacionais de 2018 (isso se não houver uma antecipação das diretas em função da agudização da crise, ainda este ano – o que é muito improvável). Por mais que, partidariamente, o PSDB tenha sido o maior vencedor, entre este pleito e o próximo há uma Lava-Jato – que tem o mérito de desvelar o conluio histórico do capitalismo de laços (compadrio) no Brasil, escancarando a promiscuidade público-privada. Ela, indo fundo, deixando de ser seletiva como muitas vezes tem sido, carrega imenso poder desestabilizador de todo o condomínio do Poder.
  10. Para nós, do PSOL, trata-se de reconhecer nossa modesta mas importante consolidação, na perspectiva da reexistência da esquerda. Trata-se de nos inserirmos mais, através do trabalho de base, pedagógico mesmo, na população, em especial a mais sofrida e distante do mundo da política. É sempre paradoxal que as maiores vítimas da desigualdade social não acolham o partido que combate, na sua prática cotidiana e com ética pública inquestionável, a desigualdade e a corrupção que a reproduz. Estamos falhando quando os setores mais explorados e induzidos à desinformação cedem ao paternalismo de “pastores cuidadores” e de populistas de direita ou de extrema-direita. Trata-se de ampliarmos nosso diálogo com os movimentos sociais, sem dirigismos, e com outros partidos do nosso campo, sem pretensões hegemonistas. De impedirmos que os adversários imponham a sua leitura da nossa pauta mudancista, pluralista e generosa, antecipando-nos com explicações quase didáticas sobre o conteúdo de cada proposta emancipatória, contra a propaganda enganosa, terrorista e embusteira da “ideologia de gênero”, da “escola sem partido”, dos “apoiadores de black blocs” e que tais, consignas tão estúpidas quanto eficazes em amplos segmentos.

Mãos à obra: “fazer é a melhor maneira de dizer” (José Marti).

EQUIPE DO MANDATO CHICO ALENCAR, 1 DE NOVEMBRO DE 2016

 

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