“LAUDATO SI”: UMA ENCÍCLICA ANTISSISTÊMICA

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15 out “LAUDATO SI”: UMA ENCÍCLICA ANTISSISTÊMICA

A “Encíclica ecológica” do Papa Francisco é um evento de importância planetária, do ponto de vista religioso, ético, social e político. Considerando a enorme influência mundial da Igreja católica, é uma contribuição crucial para o desenvolvimento de uma consciência ecológica crítica. Foi recebida com entusiasmo pelos verdadeiros defensores do meio ambiente, mas suscitou inquietação e rechaço entre os religiosos conservadores, representantes do capital e ideólogos da “ecologia de mercado”.  Trata-se de um documento de grande riqueza e complexidade, que expressa uma nova interpretação da tradição judaico-cristã – em ruptura com “o sonho prometeico de domínio sobre o mundo” – e uma reflexão profundamente radical sobre as causas da crise ecológica. Em vários aspectos, como, por exemplo, na inseparável associação do “clamor da terra” com o “clamor dos pobres”, se percebe que a teologia da libertação – em particular a do eco-teólogo Leonardo Boff – foi uma de suas fontes de inspiração.

Nas breves notas que seguem, me interessa enfatizar uma dimensão da Encíclica que explica as resistências que a ela se opôs no establishment econômico e midiático: seu caráter antissistêmico.

Para o Papa Francisco, os desastres ecológicos e a mudança climática não resultam simplesmente de comportamentos individuais – ainda que eles tenham o seu papel – senão dos atuais modelos de produção e consumo. Bergóglio não é um marxista, e a palavra “capitalismo” não aparece na Encíclica….  Porém fica muito claro que, para ele os dramáticos problemas ecológicos de nossa época resultam “das engrenagens da atual economia globalizada” – engrenagens que constituem um sistema global, “um sistema de relações comerciais e de propriedade estruturalmente perverso”. 

Quais são, para Francisco, estas características “estruturalmente perversas”?  Antes de tudo, é um sistema no qual predominam os “interesses ilimitados das empresas” e “uma questionável racionalidade econômica”.  Uma racionalidade instrumental que tem por único objetivo maximizar o lucro.  E avalia bem: “o princípio de maximização do lucro, que tende a isolar-se de qualquer outra consideração, é uma distorção conceitual da economia: se aumenta a produção, interessa pouco que se produza ao custo dos recursos futuros ou da saúde do ambiente”. Esta distorção, esta perversidade ética e social, não é própria de um ou outro país, senão de “um sistema mundial, onde prevalece uma especulação e uma busca de rendimento financeiro que tende a ignorar todo contexto e os efeitos sobre a dignidade humana e o meio ambiente. Assim se manifesta que a degradação ambiental e a degradação humana e ética estão intimamente unidas”. 

A obsessão do crescimento ilimitado, o consumismo, a tecnocracia, o domínio absoluto da finança e a divinização do mercado são outras características perversas do sistema. Em sua lógica destrutiva tudo se reduz ao mercado e ao “cálculo financeiro de custos e benefícios”. Porém sabemos que “o ambiente é um destes bens que os mecanismos de mercado não são capazes de defender e promover adequadamente”. O mercado é incapaz de levar em conta valores qualitativos, éticos, sociais, humanos ou naturais, ou seja, “valores que excedem a todo cálculo”.

O poder absoluto do capital financeiro especulativo é um aspecto essencial do sistema, como se revelou na recente crise bancária. O comentário da Encíclica é contundente e desmistificador: “a salvação dos bancos a qualquer custo, fazendo a população pagar o preço, sem a firme decisão de revisar e reformar o sistema inteiro, reafirma um domínio absoluto das finanças que não tem futuro e que só poderá gerar novas crises depois de uma lenta, custosa e aparente cura. A crise financeira de 2007-2008 seria a ocasião para o desenvolvimento de uma nova economia mais atenta aos princípios éticos e para uma nova regulação da atividade financeira especulativa e da riqueza fictícia. Porém não houve uma reação que levasse a repensar os critérios obsoletos que seguem regendo o mundo”.

Esta dinâmica perversa do sistema global que “segue regendo o mundo” é a razão que tem levado ao fracasso as “Cúpulas Mundiais” sobre o meio ambiente: “há demasiados interesses particulares e muito facilmente o interesse econômico chega a prevalecer sobre o bem comum e a manipular a informação para não ver afetados os seus projetos”. Enquanto predominar os imperativos dos poderosos grupos econômicos “só se pode esperar declarações superficiais, ações filantrópicas isoladas, e também esforços por mostrar sensibilidade sobre o meio ambiente, quando na realidade qualquer tentativa das organizações sociais para mudar as coisas será vista como uma moléstia provocada por ilusões românticas ou como um obstáculo a ser removido”. 

Em tal contexto, a Encíclica desenvolve uma crítica radical à irresponsabilidade dos “responsáveis”, ou seja, as elites dominantes, as oligarquias interessadas na conservação do sistema, em relação à crise ecológica: “muitos daqueles que têm mais recursos e poder econômico ou político parecem concentrar-se sobretudo em mascarar os problemas ou em ocultar os sintomas, tratando apenas de reduzir alguns impactos negativos da mudança climática. Porém muitos sintomas indicam que esses efeitos poderão ser cada vez piores se continuarmos com os atuais modelos de produção e consumo”.  

Confrontados com o dramático processo de destruição dos equilíbrios ecológicos do planeta e a ameaça sem precedentes que representa a mudança climática, o que propõem os governos, os representantes internacionais do sistema (Banco Mundial, FMI etc.)?  O que se propõe é o pretenso “desenvolvimento sustentável”, um conceito que se fez cada vez mais vazio de conteúdo, um verdadeiro flatus vocis como diziam os escolásticos medievais. Francisco não tem nenhuma ilusão em tal mistificação tecnocrática: “o discurso do crescimento sustentável converteu-se em um recurso diversionista e “exculpatório” que absorve valores do discurso ecologista dentro da lógica das finanças e da tecnocracia, e a responsabilidade social e ambiental das empresas se limitam a uma série de ações de marketing e imagem”.

As medidas concretas propostas pela oligarquia tecno-financeira dominante são perfeitamente ineficazes, como é o caso dos chamados “mercados carbonos”.  A crítica mordaz feita pelo Papa Francisco a esta falsa solução é um dos argumentos mais importantes da Encíclica. Citando uma resolução da Conferência Episcopal Boliviana, Bergóglio escreve: “a estratégia de compra e venda de “bônus de carbono” pode dar lugar a uma nova forma de especulação, e não servir para reduzir a emissão global de gazes contaminantes. Este sistema parece ser uma solução rápida e fácil, com a aparência de um certo compromisso com o meio ambiente, mas de nenhuma maneira implica mudança radical a altura das circunstâncias. É, isto sim, um recurso diversionista que permite sustentar o consumo excessivo de alguns países e setores”. Passagens como esta explicam o pouco entusiasmo de círculos oficiais e dos partidários da “ecologia de mercado” (ou do “capitalismo verde) pela “Laudato Si”.

Sempre associando a questão ecológica com a questão social, Francisco insiste na necessidade de medidas radicais, drásticas, ou seja, de mudanças profundas, para enfrentar a este duplo desafio. O principal obstáculo para isto é a natureza “perversa” do sistema: “a mesma lógica que dificulta tomar decisões drásticas para inverter a tendência de aquecimento global é a que não permite cumprir com o objetivo de erradicar a pobreza”. Se o diagnóstico da “Laudato Si” sobre a crise ecológica é de uma clareza e de uma coerência impressionantes, as ações que propõe são mais limitadas. É certo que muitas de suas sugestões são úteis e necessárias, por exemplo, “facilitar formas de cooperação ou de organização comunitária que defendam o interesse dos pequenos produtores e preservem os ecossistemas locais da depredação”. É também muito significativo que a Encíclica reconheça a necessidade, para as sociedades mais desenvolvidas, de “reduzir um pouco a marcha, e se colocar alguns limites racionais e, inclusive, voltar atrás antes que seja tarde”, em outras palavras: “chegou a hora de aceitar um certo decrescimento em algumas partes do mundo, aportando recursos para que se possa crescer de maneira sã em outras partes”.     

Faz falta, no entanto, precisamente as tais “medidas drásticas”, como por exemplo as que propõe Naomi Klein em seu último livro, “Esto cambia todo!”: romper, antes que seja tarde demais, com as energias fósseis (carvão, petróleo), deixando-as embaixo do solo. Não se pode pensar em uma transição para além das estruturas perversas do atual modo de produção e consumo sem um conjunto de iniciativas anti-sistêmicas, que ponha em questão a propriedade privada, por exemplo, as grandes multinacionais de energia fóssil (BP, Shell, Total etc.). O Papa, claro, fala da necessidade de “grandes estratégias que detenham eficazmente a degradação ambiental e alimentem uma cultura de cuidado que impregne toda a sociedade”, porém este aspecto estratégico é pouco desenvolvido na Encíclica.

Reconhecendo que “o sistema mundial atual é insustentável”, Bergóglio busca uma alternativa global, que intitula “cultura ecológica”, uma mudança que “não pode se limitar a uma série de respostas urgentes e parciais aos problemas que vão aparecendo em torno da degradação do ambiente, do esgotamento das reservas naturais e da contaminação.  Deveria ser uma mirada distinta, um pensamento, uma política, um programa educativo, um estilo de vida e uma espiritualidade que conformem uma resistência ante o avanço do paradigma tecnocrático”.  No entanto, há poucas indicações sobre a nova economia, a nova sociedade que correspondam à esta cultura ecológica. Não se trata de pedir ao Papa que adote o socialismo, mas a alternativa futura fica ainda muito abstrata.

O Papa Francisco torna sua a “opção preferencial pelos pobres” das igrejas latino-americanas. A Encíclica coloca claramente tal questão como um imperativo planetário: “nas condições atuais da sociedade mundial, onde há tantas iniquidades e cada vez mais pessoas descartáveis, privadas de direitos humanos básicos, o princípio do bem comum se converte imediatamente, como lógica e iniludível consequência, em um chamado à solidariedade e uma opção preferencial pelos pobres”. 

Mas os pobres não aparecem, na Encíclica, como os atores de sua própria libertação – a mais importante postulação da teologia da libertação. A luta dos pobres, dos camponeses, dos indígenas, em defesa dos bosques, da água, da terra, contra as multinacionais e o agronegócio, são uma temática pouco presente na “Laudato Si”. Francisco organizou recentemente um encontro – o primeiro na milenar vida da Igreja Católica – com os movimentos sociais, um evento de significação histórica. Mas na Encíclica há poucas referências aos movimentos sociais, que são precisamente os principais atores do combate em pauta: Via Campesina, Climate Justice, o Fórum Social Mundial etc.

Por suposto, como sublinha Bergóglio na Encíclica, não é tarefa da Igreja substituir os partidos políticos propondo um programa de transformação social. Por seu diagnóstico antissistêmico da crise, associando de forma inseparável a questão social e a proteção do meio ambiente, “o clamor dos pobres” e o “clamor da terra”, Laudato Si é uma preciosa e inestimável contribuição à reflexão e à ação para salvar a natureza e a humanidade da catástrofe.

Michael Löwi

(autor do livro “Ecologia e Socialismo”, Cortez Editora, SP, 2005)

Tradução: Léo Lince

2 Comentários
  • Analise perfeiya
    Postado em 02:19h, 06 janeiro Responder

    Texto sólido e claro.

    • Analise perfeita.
      Postado em 02:19h, 26 janeiro Responder

      Um texto muito bem redigido, e bastante esclarecedor!

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