DE ESPERANÇA EM ESPERANÇA

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15 dez DE ESPERANÇA EM ESPERANÇA

“Tudo vem das pequenas coisas, principalmente as grandes”. Esta frase eu aprendi com Dom Paulo Evaristo Arns, que tinha uma singularidade: arcebispo​, ​c​ardeal, da maior diocese do Brasil, a de São Paulo – e que mantinha todo esse poder hierárquico com uma absoluta simplicidade. Nunca deixou de ser o franciscano​,​ por formação e por sua ordem religiosa. Era um homem não do poder, ​ mas da sensibilidade para com os pequenos, os humildes, os pobres​.​

Ele sabia que ser grande nessa vida tão passageira é ter identidade com os​ anônimos. Era ele seguidor fiel e autêntico do pequenino da manjedoura de Belém, no meio da noite, num pasto, num curral abandonado porque “não havia lugar para eles na hospedaria”.

Dom Paulo conseguiu algo que não é muito comum, na cúpula das igrejas: manter a fidelidade ao evangelho de Jesus Cristo na sua radicalidade da opção preferencial pelos pobres, pelos desvalidos. Dom Paulo, na sua singeleza e na sua maneira suavíssima de ser, enfrentou os metais criminosos da Ditadura. Levantou sua voz contra a tortura, o banimento, o crime oficial, o aparato de Estado colocado para censurar, perseguir, oprimir e fazer todo tipo de atrocidade. Dom Paulo nos liderou no NÃO a esse período de tanta opressão!

Também me recordo, e conversava há pouco com a nossa querida Erundina:​ ela, prefeita de São Paulo, apoiando através ​do seu governo a busca por mortos e desaparecidos na Ditadura. E encontrou ossadas de muitos deles, inclusive Sônia Angel, companheira do Stuart Angel​ -​ ambos mortos sob tortura, ali no cemitério de Perus, distante do centro da cidade. Encontraram, jogados como indigentes, muitos prisioneiros políticos. E na gestão da Erundina isso ​foi resgatado, recuperado. E havia solenidades ali mesmo no cemitério, onde há um marco do descobrimento desses que a Ditadura queria fazer desaparecer completamente da face da terra. E Dom Paulo, de novo, com a sua palavra de sabedoria teológica, de humanista radical e profeta, numa dessas solenidades, de maneira muito comovente, com os familiares e muita dor pungente, disse: “nós todos, em duas ​ou​ no máximo três gerações, estaremos totalmente esquecidos. Até pelos nossos familiares. Podem ver, que bisneto vai lembrar da gente? E no entanto esses aqui, que a Ditadura quis fazer desaparecer como nome, como certidão, como mínimo de identidade, esses que ela tentou exterminar, apagar totalmente e queimar a memória​ -​ porque lutaram contra ela na sua juventude idealista e tão corajosa​ -​  serão lembrados para sempre! ”

Dom Paulo Evaristo, fiel ao Concílio Vaticano II, que praticava na liderança de sua igreja aquilo que agora o Papa Francisco reitera, ele sem dúvida será para sempre um marco nas nossas vidas. Um símbolo de que o cristianismo no Brasil pode ser de fato o estimulador da luta pela justiça, pela igualdade, pela fraternidade e pela solidariedade.

Imagino ele lá, nesse outro nível de vida, no reino dos céus, agora abraçando Dom Helder, nosso querido Dom Tomas Balbu​í​no, Dom Antônio Fragoso e sua irmãzinha Zilda Arns, outra mulher generosíssima. A festa no céu está boa, bem melhor que aqui, especialmente onde estou agora, ​na Câmara dos Deputados, onde es​s​a sensibilidade raramente aparece.

1Comentário
  • Artur
    Postado em 21:17h, 15 dezembro Responder

    Essa ala da igreja católica é a que salva a instituição a ala mais progressista os Franciscanos como o Papa!!! ele a representou sempre longe das ganâncias e do poder pelo poder!!!