Chico Alencar prevê processo longo para afastamento de Cunha

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22 out Chico Alencar prevê processo longo para afastamento de Cunha

por Cristian Klein, para o Valor Econômico (20/10/2015).

No aniversário de 57 anos do presidente da Câmara, em 29 de setembro, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) ofereceu o primeiro pedaço do bolo da comemoração preparada, na reunião do colégio de líderes, ao adversário Chico Alencar  (PSOL-RJ), que declinou do agrado, justificando ser “diabético ou pré-diabético”. “O pessoal ainda insistiu, dizendo que não estava envenenado”, conta, rindo, o deputado. Menos de três semanas depois, é Chico Alencar  quem aniversaria — completou ontem 66 anos — como o algoz de Cunha na Casa. Está na linha de frente pelo pedido de cassação do mandato do pemedebista e acaba de ser lançado, pelo líder de seu partido, Ivan Valente (SP), à sucessão de Cunha.

A representação foi registrada no Conselho de Ética, na semana passada, por PSOL e Rede Sustentabilidade, que contam com pequenas bancadas, de cinco deputados cada. O movimento anti-Cunha, no entanto, se amplia e já reúne lista de apoio de 55 nomes, de dez partidos. As assinaturas, ressalva Alencar, não têm valor legal, mas são uma “expressão política” do enfraquecimento do presidente da Câmara.

Chico Alencar é cauteloso e ao mesmo tempo otimista a respeito das chances de derrubá-lo. Calcula que hoje, em tese, Cunha teria maioria no Conselho de Ética para barrar a admissibilidade do processo. Mas os desdobramentos da revelação das contas secretas na Suíça podem virar o jogo, que julga acirrado. “Pode haver uma surpresa, com uma larga margem pela continuidade do processo. Mas larga margem contra não vai ter”, diz o vice-líder do PSOL.

O deputado prevê um processo longo, cuja tendência é Cunha não renunciar, como já fizeram outros políticos em situação semelhante. “Por muito menos ACM — o ACM, hein! — o Jader Barbalho, Renan Calheiros e Severino Cavalcanti se afastaram das presidências do Senado — os três primeiros — e da Câmara, o último. Só que ele é uma figura diferenciada, como se diz no futebol”, aponta Alencar  .

Fosse um quadro político “normal”, afirma o parlamentar, Cunha “é óbvio” que teria anunciado hoje, ou no fim de semana, no mínimo seu afastamento da presidência da Casa — pelo teor das denúncias que estão vindo à tona. O deputado descreve Cunha como “imprevisível, agressivo, obstinado, obcecado”, e que certamente foi aconselhado por caciques do PMDB — como Jader, Renan e o vice-presidente da República, Michel Temer, a refluir. “Mas ele não ouve”, diz.

Com a imprevisibilidade, o pemedebista pode acolher “agora” pedido de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff — sob a lógica de que “perdido por um, perdido por mil” — ou segurar [os pedidos] “como forma de pressão”. Mas Cunha se arriscaria a perder o mandato com o trunfo na mão? “Não, pois do ponto de vista da tramitação na Câmara, as coisas são lentas”, afirma Alencar, para quem a tese do impeachment ainda não morreu, embora o PSOL seja contrário a ela.

O deputado lembra que apesar da promessa do presidente do Conselho de Ética, José Carlos Araújo (PSD-BA), de dar celeridade, o prazo de julgamento é de 90 dias. Com o recesso parlamentar, a conclusão pode ficar para 2016. “A tendência é o cinismo prevalecer”, afirma. Ou seja, Cunha ainda manteria o jogo duplo, como aliado não confiável, no meio de dois adversários — situação e oposição — que “estão se estudando”.

Em sua opinião, o acordo do presidente da Câmara com os oposicionistas — preocupados no desgaste da imagem — “está começando a fazer água”. Mas o suposto pacto com o governo convive com sinais contraditórios. Os líderes do governo e do PT, na Câmara, têm atitude “completamente afável”, mas a bancada que mais endossa a cassação de Cunha é a petista, com 36 das 55 assinaturas colhidas, o que corresponde a 58% dos deputados do partido. No PSDB, que tem 54 parlamentares, apenas um apoia.

Alencar projeta um cenário pós-Cunha no qual o PMDB poderia permanecer na presidência, com nomes considerados éticos, como Osmar Terra (RS) ou Osmar Serraglio (PR), ou que a saída seja parecida com a de 2005, quando Aldo Rebelo (PCdoB-SP), de um pequeno partido, sucedeu Severino. O decano Miro Teixeira (Rede), seria uma opção, diz. “A Rede é coautora da representação, mas ele, não por acaso, não assinou. Acho que se preservou, porque pode estar querendo cumprir esta missão, se for chamado”, diz.

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