Acabou a Copa, começa outra…

Acabou a Copa do Mundo de futebol, que durante um mês dominou as atenções. Embora com a frustração de não ver nossa seleção sequer passar às semifinais, a vitória do time da França, cheio de afrodescendentes, é um cutucão nos racistas, nos neoarianos, nos que consideram que do lado sul do Hemisfério há gente inferior… Marine Le Pen, líder da extrema direita francesa com tantos admiradores no Brasil, chegou a dizer que a seleção campeã não representava plenamente o seu país!

Mas agora são outros times que, entre nós, vão entrar em campo: as “equipes” dos partidos políticos. Neste momento, estamos a exatamente um mês do início da campanha para a presidência da República, o governo de 26 estados e do Distrito Federal, a totalidade das Assembleias Legislativas e da Câmara Distrital, os 513 cargos de deputado federal e 2/3 do Senado. Uma grandiosidade!

Grandiosidade de renovação da direção política do país a ser decidida pelo voto de Suas Excelências, os 145 milhões de eleitoras e eleitores. Grandiosidade que contrasta com a pequenez do principal instrumento de conquista do sufrágio, que é o partido político. Os partidos, com raras exceções, não têm ideologia para viver, nem doutrinas a respeitar. São ajuntamentos de interesses escusos, para abocanhar nacos do orçamento público. São sociedades de oportunistas obcecados pela busca de tesouros que alimentam seu sonho patrimonialista. São entidades que odeiam a organização autônoma do povo, pois querem substituí-la: representação que não suporta a “presentação”. São clubes de deseducadores do povo, sem qualquer dimensão de serviço, com afã exclusivo no próprio benefício. São escritórios servis das grandes corporações econômicas e de todo tipo de máfia. São escudeiros do “deus mercado”, a quem cultuam, incapazes de visão humanista planetária e de soberania nacional solidária.

Pois caberá a esses partidos – com exceções quanto a essa nefasta caracterização, repito – entrar no campo esburacado do desencanto popular com a política, maior adversário a ser enfrentado. Desencanto e ojeriza produzido pelos próprios “times”, com seu jogo mal jogado de toma-lá-dá-cá (um “tic-tac” improdutivo para a coletividade). Da desonestidade como regra e da mentira como tática.

Outro adversário é a crescente maré obscurantista, aquela que louva o jogo truculento dos retrocessos, da intolerância, da propagação do ódio, do “cada cidadão, uma arma”. Só a cidadania consciente e ativa pode dar o necessário “cartão vermelho” aos baluartes das “soluções” rasas, racistas, homofóbicas, feminicidas.

Em dezembro passado, em debate público em Quintino, zona norte do Rio, Marielle Franco, executada há quatro meses (crime até aqui sem solução) foi tragicamente profética: “Tem muita vida pra gente percorrer, a vida não pode acabar em 2018!” – disse ela. As urnas de 2018 não podem matar de vez os sonhos de um futuro democrático e igualitário no nosso sofrido Brasil.

Por Chico Alencar, professor, escritor e deputado federal (PSOL/RJ).

Das fraquezas e das franquezas

Quem gosta de futebol ficou chateado com a eliminação da nossa seleção na Copa. Quem entende de futebol sabe que derrota faz parte. Nenhum time é invencível. Como na vida, o mais importante é a forma de reagir aos reveses. Gostei da franqueza de Neymar: “esse é o momento mais triste da minha carreira. Difícil encontrar forças pra querer voltar a jogar futebol”. Por óbvio ele voltará, até pelas somas milionárias que recebe, mas provavelmente mais maduro, acrescentado.

Na política deveria ser assim também. Deveria. Pouquíssimos conseguem demonstrar abatimento quando derrotados – e não me refiro apenas a derrotas eleitorais. Revés na política devia ser, por exemplo, ser alvo de investigações a partir de robustas evidências. Isso tem sido constante na vida nacional. Mas a maioria absoluta dos atingidos não se abala e segue impávida: “estou tranquilíssimo, minha inocência restará provada” – é o mantra.

Entre nós, a regra dominante parece ser a do “mudar para manter tudo como está”. Crivella, o prefeito que ia “cuidar das pessoas”, é flagrado “cuidando” privilegiadamente dos seus “irmãos de fé”, em cirurgias e isenções fiscais, “para aproveitar a oportunidade que Deus deu de governar o Rio”. Nas articulações para compor alianças na disputa pelo governo do Rio de Janeiro há os que buscam o apoio do MDB, “para recuperar o estado, que foi à falência”. Busca-se renovar uma roupa já rota com o mesmo pano esfarrapado que se degradou.

Para o nosso futebol, espera-se revisão profunda, análise dos problemas reais, reconhecimento de erros, superação. Na política vigente no Brasil, desprezada a autocrítica, partidos mudam de nome, mas prosseguem com as mesmíssimas práticas. Logo “os alquimistas estarão chegando”, com sorrisos, promessas e muito dinheiro – público, desta vez! – para captar votos. Apesar dos enormes escândalos que levaram a política institucional à eliminação na credibilidade popular, prosseguem o vício patrimonialista, o servilismo aos grandes grupos econômicos, o descompromisso com a ética, o racismo disfarçado e a arte de manipular para se perpetuar no poder.

Essa miséria política é também cultural, aceita por setores da sociedade. Semana passada, empresários aplaudiram um deputado presidenciável que confessou estar “perdendo a alegria de viver por não poder mais contar piadas de afrodescendentes, cearenses e goianos”! Agora diz não saber se o jornalista Vladimir Herzog foi morto sob tortura, pois “não estava lá e suicídio acontece”.

Ainda bem que em outros lugares do mundo há sinais de esperança. No sofrido México, as urnas consagraram López Obrador, dando maioria também no Parlamento ao seu Movimento de Renovação Nacional (MORENA). Falando para uma multidão na Praça do Zócalo, o vitorioso jurou “não mentir, não trair e falar sempre a verdade”. Na Tailândia, uma coalizão internacional solidária se empenha em salvar meninos isolados numa caverna desde o mês passado. Fiat lux, entre nós também!

Por Chico Alencar, professor de História, escritor e deputado federal (PSOL/RJ).

Política como exigência da fé

A primeira entidade de nível nacional que se manifestou oficialmente sobre as eleições de outubro próximo foi a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), reunida na sua 56ª assembleia geral, em abril.

Na linha do papa Francisco, que quer uma Igreja Católica despojada e inserida no mundo, a CNBB fixou diretrizes importantes em seu documento “Compromisso e esperança”, dirigido ao povo brasileiro. Se todas as pessoas de boa vontade, religiosas ou não, as seguirem, as urnas impulsionarão mudanças importantes no Brasil.

A CNBB lembra que nenhum cristão pode desconhecer “a dimensão política da fé”, sendo alienado: “a razão da verdadeira política é a construção do bem comum”. A Igreja “não pode nem deve ficar à margem da luta pela justiça”. Esta remete à opção preferencial pelos pobres e excluídos: “sem tirar os pés do duro chão da realidade, somos movidos pela esperança, que nos compromete com a superação de tudo o que aflige o povo”.

O episcopado reconhece a “aguda crise que abala fortemente as estruturas democráticas do país”. Menciona um “cenário desolador”, marcado por: 1- corrupção de agentes públicos e privados, com “raízes cada vez mais alastradas e profundas”; 2- aumento do desemprego, da pobreza e dos que vivem em situação de vulnerabilidade; 3- crescimento da violência no campo e na cidade, que ceifa vidas – “sobretudo de mulheres, pobres, jovens, negros e indígenas”; 4- retirada de direitos e conquistas sociais; 5- carência de políticas públicas consistentes;  6- discursos e atos de intolerância e de ódio; 7- “economia que submete a política aos interesses do mercado”.

Para a CNBB, as eleições deste ano, realizadas com lisura, “dentro de princípios democráticos e éticos (…), têm sentido particularmente importante e promissor” para a superação “da crise institucional vigente”. E para evitar a “judicialização da política e a politização da Justiça”. Alerta para as fake news, “já presentes nesse período pré-eleitoral”.

Os bispos reconhecem a importância do voto, “embora este não esgote o exercício da cidadania”. E exortam a cidadania a “acompanhar os eleitos e participar efetivamente da construção de um país justo, ético e igualitário”.

Para a escolha consciente do(a) eleitor(a), a CNBB aponta critérios claros: 1- “conhecer e avaliar as propostas e a vida dos candidatos, identificando os interesses subjacentes a cada candidatura”; 2- não votar naqueles “que se rendem a uma economia que coloca o lucro acima de tudo e não assumem o bem comum como sua meta”; 3- não eleger “os que propõem e defendem ‘reformas’ que atentam contra a vida dos pobres e sua dignidade”; 4- não sufragar os “que se deixaram corromper pelo poder político e econômico (…) e que buscam foro privilegiado e outras vantagens”; 5- aprovar os que, buscando eleição ou reeleição, “honraram o exercício da política” e, como exorta o papa Francisco, “não se deixam intimidar pelos grandes poderes financeiros e midiáticos”.

Com a palavra (e o voto) Sua Excelência, o(a) eleitor(a).

Por Chico Alencar, professor de História, escritor e deputado federal (PSOL/RJ). Publicado originalmente no Jornal do Brasil.