Oito meses sem Marielle

Marielle estava sendo levada
Da África para o Brasil
Num navio negreiro
Quando um carro emparelhou com o navio
E deram quatro tiros a cabeça dela

Tempos depois
Marielle pegou um pau-de-arara
E foi pro Rio de Janeiro
Na estrada, um carro emparelhou com o caminhão
E deram quatro tiros na cabeça na cabeça dela

Há oito meses
Marielle se encontrava na Casa das Pretas
E logo depois que saiu
Um carro emparelhou com o seu
E deram quatro tiros a cabeça dela

E depois
O corpo foi velado
Sem que o caixão fosse aberto

Quem suportaria ver naquele rosto sem face, esfacelado?
Quem deixaria aquele corpo fugir, sem sua cabeça, vagando?
Cuidamos dela: não abrimos o caixão.

De repente, lá de dentro sua voz voou pelos ares
E todos aqui de fora responderam
Ela não emudeceu
Ela virou muda
E muito dela vai brotar
Muito vai florir
Muito desabrochará
Planta que molha a terra

(Mônica Dantas)

Cumplicidade criminosa

No Brasil, 90% dos homicídios ficam sem solução. Não há solução para uma vida destroçada, a não ser no plano da fé. Mas elucidação do crime, para evitar que se banalize a destruição do outro, é um imperativo civilizatório. Por isso é correto dizer que estamos no limiar da barbárie.

Marielle Franco e Anderson Gomes foram executados há cinco meses. De início, com a comoção nacional e internacional que a atrocidade provocou, as autoridades disseram que era preciso ter cautela para se investigar bem. Usaram reiteradamente os exemplos dos casos da juíza Patrícia Aciolli, esclarecido em 60 dias, e do pedreiro Amarildo, em 90 dias – ainda que seu corpo nunca tenha sido encontrado. Em ambos os casos, policiais praticaram os crimes.

Esses “prazos de demonstração” já passaram. E tudo que as autoridades de segurança do Rio de Janeiro declaram é que “as investigações estão sob sigilo”. Como disse o pai de Marielle, Antonio Francisco da Silva Neto, em artigo na Folha de São Paulo publicado no Dia dos Pais, “cinco meses sem respostas é tempo demais”.

O ministro da Defesa, Raul Jungmann, anunciou que agentes públicos de controle e políticos estariam envolvidos. Gente poderosa que, por isso, dificulta as investigações. Não devia ser assim. Se os criminosos operam por dentro do Estado, em tese seria mais fácil encontrá-los, estabelecer nexos, descobrir elos. A não ser que a metástese do crime já esteja tão avançada que os do bem, na teia, tornaram-se minoria impotente.

O carro usado no atentado simplesmente desapareceu, bem como a arma. Os celulares não teriam sido acionados por bom tempo, antes, durante e depois do ato bárbaro. A sofisticação do crime foi tanta que os bandidos teriam gasto, na perpetração da operação covarde, cerca de R$ 3 milhões. Gente de esquema, gente de dinheiro. Gente com poder, portanto.

Autorizado por Michel Temer, Jungmann oferece a federalização da investigação. É de se indagar o que de novidade isso traria, considerando que a Segurança Pública do Rio de Janeiro já está federalizada, militarizada, sob intervenção. Aliás, é uma vergonha para essa intervenção que esse caso tão emblemático de crime político não tenha sido elucidado até agora.

Enquanto isso, nosso clamor não calará: quem matou Marielle e Anderson? Quem mandou matar? Quais as motivações do crime hediondo? Quais as linhas de investigação? É verdade que há grupos políticos, vinculados a controle de território, que tentam jogar a culpa uns nos outros?

A morosidade na investigação pode indicar até cumplicidade com o banditismo que implementou a tragédia. Talvez essa gente estúpida e hipócrita, no cambaleante Rio de Janeiro, venha com sorrisos, repaginada, para disputar as eleições que se aproximam! Seria a captura definitiva do Estado pelos agentes do crime e da morte. O Rio de Janeiro não suporta tamanha degeneração. Valei-nos, São Sebastião!

Por Chico Alencar, professor, escritor e deputado federal (PSOL/RJ)

Edson, Marielle: Ressurreição!

Meninos e meninas, eu vi, eu fui. Não existia celular, mas a notícia se espalhou com rapidez: mataram um estudante! Pouco mais que um adolescente, de uniforme do Colégio de Aplicação da UEG (hoje UERJ), me mandei para o centro da cidade, com alguns colegas. A praça da Cinelândia começava a ficar cheia. No saguão da então Assembleia Legislativa do Estado da Guanabara, em cima de uma das mesas, o corpo ensanguentado de Edson Luís de Lima Souto, estudante de 18 anos, era velado. E vigiado, para que a PM, que o matara, não o sequestrasse. Ele levara um tiro quando participava de manifestação por melhoria das condições e da comida servida no precaríssimo restaurante Calabouço. A estudantada também cobrava “mais verbas para educação e menos canhão”. O que consegui fazer foi escrever numa folha de caderno, em letras trêmulas: “Ditadura mata”. No dia seguinte, uma multidão fez a pé o cortejo com o caixão de Edson, da Cinelândia até o São João Batista. Lá se vão 50 anos.

Meninas e meninos, nós vimos e fomos. Estava em Brasília e a notícia chegou rápida e devastadora: mataram a Marielle e o Anderson, também jovem, que dirigia o carro em que ela voltava para casa! Já sexagenário, teimando na esperança, volta e meia recuso-me a acreditar nessa atrocidade. Na quinta-feira, eu e o colega de bancada Glauber Braga pegamos o primeiro avião que conseguimos. Talvez rememorando inconscientemente a penosa jornada de meio século atrás, sugeri que fôssemos a pé do Santos Dumont até a Cinelândia. “Para colocar de vez os pés no chão e não desabar” – argumentei. Chegamos, com uma multidão que só crescia, antes dos corpos de Marielle e Anderson. Quando eles afinal foram deixados em nossas mãos para o adeus, a comoção foi geral. Subi até o Salão Nobre da Câmara Municipal, onde as famílias queriam uma despedida mais íntima dos seus amados, tão covardemente retirados do nosso convívio. Ali, entre lágrimas, soluços e preces, pude compartilhar os lamentos de mães, pais, irmãs, companheira(o)s: “por que, meu Deus? Eles só faziam o bem… Quem fez, quem tramou essa barbaridade?”.

Na volta à praça, encontrei o velho camarada Vladimir Palmeira, que nos liderava no enterro de Edson. Lembramos do meio século transcorrido. Deploramos um país que, mesmo livre do regime do arbítrio total, continua matando seus filhos pelo fato deles sonharem em fazer dessa vergonha uma Nação e contestarem os podres poderes.

Mas, apesar de tanta dor, havia um ambiente de irmandade ali que revelava que aquelas mortes não foram em vão. Os facínoras do futuro, os assassinos da utopia, ainda ocultos, não terão a última palavra. Em milhares ecoa a voz de Milton Nascimento, entoando os versos de Ronaldo Bastos: “Quem cala sobre teu corpo/ consente na tua morte (…) quem grita, vive contigo!”. Ressurgiremos.

Publicado originalmente no Blog do Noblat. Por Chico Alencar, professor de História, escritor e deputado federal (PSOL/RJ).