No ambiente, por inteiro

Hoje quero refletir com você sobre… nós! Nós, os humanos, que somos compostos da mesma matéria dos nossos semelhantes animais e vegetais. Nós, que temos alguns elementos físico-químicos que há nos minerais. Nós, que somos Terra, que somos planetários.

Há uma nova consciência que, superando a condição de “dominadores” da natureza, percebe-nos como parceiros de tudo o que pulsa e constitui. Somos água, terra, fogo e ar. Pela primeira vez em dois milênios de Igreja Católica, um papa, Francisco, lançou uma linda encíclica sobre isso: Laudato sì – “Sobre o cuidado da casa comum”. Celebrar a Semana do Meio Ambiente significa pensá-lo por inteiro: nós dentro dele.

É imperativo também bradar contra riscos e retrocessos. O modelo produtivista hegemônico no mundo leva a uma urbanização irracional, que cria grandes megalópoles que soterram cursos d´água e produzem objetos descartáveis que se acumulam. As áreas pobres dos grandes aglomerados são desassistidas: no Brasil, 48% das casas ainda não têm coleta de esgoto! Elas são movidas sobretudo a energia fóssil, poluidora, engarrafadora. A recente greve dos caminhoneiros colocou a nu, além da exploração da categoria, os perigos dessa dependência.

No Brasil atual, o meio ambiente está sob forte ataque. Temos nada menos que 2.775 espécies ameaçadas, incluindo insetos polinizadores. Desses, 290 são vegetais, como o faveiro-de-wilson. A conjuntura agrava o quadro: o (des)governo Temer realiza ofensiva jamais vista. Ele despreza a ecologia, colocando os órgãos públicos de proteção à nossa rica biodiversidade à mercê dos acertos partidários, indicando para cargos de direção gente sem competência e compromisso. Também oferece Medidas Provisórias – como a 820/18 – que abrem espaço a “jabutis” para favorecer a intervenção em terras indígenas, e sua segmentação. Sua base agronegociante de sustentação, além da famigerada PEC 215, que acaba com a possibilidade de criação de áreas indígenas, se empenha agora na aprovação do PL 490/07 e no PL do Veneno, que libera amplamente o uso de agrotóxicos.

Por outro lado, os biomas do Cerrado, da Caatinga e dos Pampas, que representam 35% do território brasileiro, continuam a sofrer forte barreira no Congresso para serem inscritos na Constituição como patrimônio nacional.

Mas não basta denunciar essa ofensiva e resistir a ela. O problema não é só do Poder Público e das empresas devastadoras e poluidoras: é também de cada um de nós. Vale nos indagarmos, por coerência: como estamos tratando o nosso lixo, ainda que poucas cidades realizem a coleta seletiva? Fazemos uso esbanjador da preciosa água que chega às nossas torneiras? A indução ao consumo contínuo nos atinge, de modo a comprarmos mais coisas e gastarmos mais energia do que o necessário?

Mais do que nunca é preciso lembrar do ensinamento de Albert Einstein: “a natureza, quando agredida, não se defende: ela apenas se vinga”. Saibamos ser parte dela, e não seus algozes!

Por Chico Alencar, professor, escritor e deputado federal (PSOL/RJ).

Os Serial Killers de Marielle

Morto amado nunca mais para de morrer”, disse Mia Couto. A saudade é o sacramento daquele corpo que não mais veremos, da voz que não escutaremos, da lágrima que não rolará daqui em diante por aquele rosto. Nossos mortos queridos não cessam de morrer e nós deles fazemos memória: por eles semeamos. Tentando ser um pouco eles, prosseguimos.

Mas há outras mortes daqueles que já morreram. Nossa Marielle continua sendo morta pelos cultores do ódio, que não se contentam com sua brutal eliminação. Atualizam a abominável sanha de atribuir à vítima a culpa por seu próprio martírio.

Assassinam Marielle os que a caluniam, com o arsenal venal de mentiras.  A começar por aqueles ignaros que consideram que nascer e crescer em favela gera cumplicidade com quem as domina, despoticamente.

Matam Marielle outra vez os que querem manter na exclusão os que ela, por coerência de vida, sempre defendeu: os pobres, os marginalizados, os discriminados. Voz dos que não têm voz, Marielle teve a sua silenciada por representar, com dignidade, os invisibilizados.

Agridem Marielle os que, subitamente “sensibilizados” pela morte de tantos inocentes – foram 60 mil assassinatos no Brasil, ano passado! – reclamam do “alvoroço” em torno da sua. Má fé ou burrice, eles não sabem ou fingem desconhecer que Marielle fez de seu mandato estupidamente interrompido uma trincheira de solidariedade para com os anônimos eliminados pela violência. Inclusive policiais. Ela era uma representante eleita, e seu trucidamento atinge gravemente a democracia.

Tentam apagar Marielle os que, autoproclamados “sensatos”, repetem a idiotice do “não politizar” um crime… político, cometido pelos que se incomodam com as pautas defendidas por ela, que são as do seu partido, o PSOL. Não se trata de encher de bandeiras do PSOL as multidões consternadas com o duplo homicídio covarde, mas jamais esconder que ela era, sim, uma militante do nosso partido. E temos orgulho disso. E continuaremos sua luta.

Farão novos disparos contra Marielle os que, responsáveis pela investigação da trama diabólica não chegarem aos atiradores e mandantes. E não começarem a desmantelar os elos da parceria público-privada do crime, que é tão mais organizado quanto imbricado no aparato de Estado.

Há exato meio século, na mesma Cinelândia onde velamos Marielle e Anderson, ficamos em vigília em torno do corpo inerme do estudante Edson Luís, morto aos 18 anos por uma bala da PM que reprimia manifestação por “mais verbas para Educação e menos canhão”. Ásperos tempos, de ditadura assassina. O crime, que levantou multidões, inspirou Milton Nascimento: quem cala sobre teu corpo/consente na tua morte”.

Os assassinos profissionais de Marielle e Anderson ainda estão protegidos pelo manto da cumplicidade. Cabe a nós denunciar os que tentam matá-la novamente, e que vicejam em meio ao lixo da internet. Em memória de Marielle e de tantas vítimas dos covardes de dedos sujos nos gatilhos ou nos teclados, não nos calaremos. Não consentiremos, jamais.

Publicado originalmente no Jornal do Brasil. Por Chico Alencar, professor, escritor e deputado federal (PSOL/RJ).

Banditismo à luz do dia

Está na capa d´O Globo do último sábado (10/3): duas mulheres e um rapaz oram diante de seu local de trabalho, um quiosque na Vila Kennedy, Zona Oeste do Rio. A lojinha viria, minutos depois, a ser destruída pelas máquinas da Secretaria de Ordem Urbana da Prefeitura. A manchete faz referência ao Dia da Mulher, quando soldados do Exército que ocupam o bairro popular distribuíram rosas para as moradoras: “Depois das flores, o pé na porta”.

“Chegaram aqui avisando que vão derrubar tudo. O que vamos fazer agora? Era o nosso único ganha-pão. Tenho um filho de quatro anos, um outro vem aí. O quiosque era nossa única fonte de renda. Vendíamos café da manhã, nossos lanches são famosos aqui na comunidade. Somos evangélicos, fizemos uma oração pedindo a Deus uma direção. Tudo o que quero é levar uma vida digna, trabalhando” – disse Leonardo Damasceno, ao lado da mulher, Luciana, que chorava.

O mesmo aconteceu com outros 30 quiosques, alguns ali estabelecidos há anos. Entre os contendores, a mesma reação: pranto sentido por parte dos pequenos comerciantes; frieza, arrogância e violência no lado das “autoridades”.

As forças militares que fazem uma operação “gato e rato” na Vila Kennedy, tirando barreiras que os traficantes mandam recolocar quando elas saem, deviam ter sido chamadas para impedir tamanho absurdo. Mas ou ficaram alheias à violência oficial dos agentes da Prefeitura ou deram cobertura a essa destruição.

A ação municipal, pegando carona na ocupação militar (é essa a “integração”?), foi tão estúpida que o próprio prefeito Crivella, omisso por natureza, providenciou para que o(a)s trabalhadore(a)s voltassem à atividade: abriu um programa de microcrédito para os comerciantes tomarem empréstimos de R$ 12 a 15 mil a fim de reconstruir o que o seu governo destruiu. Leonardo e vários outros voltam a trabalhar, mas saem no prejuízo. E ninguém é responsabilizado. Afinal, a dor do pobre, quando repercute, logo é esquecida.

A intervenção no Rio completa um mês esta semana. Seria muito importante ter um relatório circunstanciado do que foi feito. A cidadania continua sem saber qual é seu planejamento estratégico, quando começa a reestruturação das polícias, qual a efetividade da recaptura de armas e munições. Neste fim de semana, cinco pessoas foram mortas à bala só na região metropolitana do Rio, sendo quatro mulheres – uma delas mãe de uma menininha de três anos. A tragédia da violência continua.

Vidas humanas seguem em jogo. De seu anúncio surpreendente à sua ação até aqui, essa intervenção parece estar marcada por um viés de exibição marqueteira, e não para reduzir a aflição uma população inteira. É uma rima, mas não é uma solução.

*Chico Alencar é professor, escritor e deputado federal (PSOL/RJ)