“Somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos. Sem memória não existimos. Sem responsabilidade talvez não mereçamos existir”

 José Saramago, 1922-2010

MISSÃO CUMPRIDA: esse é o sentimento derivado de nossa atuação parlamentar, ao encerrar um ciclo de quatro mandatos federais consecutivos. Nossa atuação mesmo, no plural: sempre em equipe, construída coletivamente. Também com meu partido, o do Socialismo e da Liberdade, o PSOL, ainda pequeno, mas com vocação de grandeza. 

Um esforço permanente, e tantas vezes frustrado, para estimular o indispensável em uma República: a organização popular, a cidadania horizontal e ativa. Batalha por políticas públicas que viabilizassem avanços na superação da desigualdade social, nossa maior chaga, na educação, democrática e de qualidade, na saúde para todos, na mobilidade urbana, no direito à terra e ao teto, no imprescindível cuidado ambiental, na democratização da cultura e da comunicação. Tudo com transparência e compromisso com a ética.

Paulo apóstolo, em sua segunda carta a Timóteo, escrita da prisão em Roma, aproximando-se seu martírio, deixou uma frase linda: “combati o bom combate, terminou minha jornada, guardei a fé” (2 Tm, 4. 7). Nossa jornada ainda não terminou, mas é certo que, entre erros e acertos, combatemos o bom combate e guardamos a fé, as convicções, a primazia das ideias e causas na nossa atuação política.

Nesse período, apresentamos 104 Projetos de Leis e 151 Requerimentos de Informações. Participamos de ricas e inúmeras audiências públicas. Nosso assíduo empenho foi baseado no tripé legislar, fiscalizar e organizar. Representar e não substituir! Contribuir para a educação política do nosso povo, sem paternalismos ou clientelismos. Este último livreto (separata), que agora lançamos, “Combatendo o bom combate”, resume essa trajetória.

Os 1.281.373 votos limpos e conscientes que tivemos nas eleições de outubro de 2018, insuficientes para garantir uma cadeira no Senado pelo RJ, não deixam de ser um reconhecimento pelo trabalho desenvolvido. E uma ordem para que esse trabalho, onde for possível, continue.

Nossos ásperos tempos, com tantas ameaças a direitos duramente conquistados, exigem dedicada atuação militante. É nossa responsabilidade cidadã, no Parlamento ou fora dele. Há muitas maneiras de servir à nossa gente, em muitas frentes!

A vida prossegue, a boca devoradora do tempo parece insaciável, rapidamente o presente fica no passado. E o futuro chega, mesmo carregado do que passou, do atraso, de tantos retrocessos. É preciso estar atento e forte. Sigamos juntos!

Gratidão e pedido de perdão: sinto necessidade dessas duas atitudes ao terminar esse ciclo existencial. Sou sim grato a Deus, o Todo-Poderoso Amor, que, acredito, me deu o dom da vida e da já longa existência. E a compreensão do direito da diversidade de crenças e da não crença, e da importância da laicidade do Estado.

Gratidão por ter recebido do povo do meu maltratado Rio de Janeiro essa delegação para defender seus interesses, costumeiramente tão esquecidos. E por não ter faltado à sua confiança, apesar das minhas limitações. Gratidão aos servidores da Casa, de todos os escalões e departamentos, sem os quais não exerceria o mandato a contento.

Perdão aos que tenha agredido, injustamente, com a agulha da palavra ácida ou da indiferença. Em meu favor, ouso assumir a definitiva declaração de Saramago: “Tentei não fazer nada na vida que  envergonhasse a criança que fui”.

Como, pra mim e para muitos, a poesia é necessária como o pão de cada dia, encontrei em Thiago de Mello a melhor síntese para esta minha despedida: 

PARA OS QUE VIRÃO

Como sei pouco, e sou pouco, faço o pouco que me cabe me dando inteiro.Sabendo que não vou ver o homem que quero ser.
Já sofri o suficiente para não enganar a ninguém:
principalmente aos que sofrem, na própria vida, a garra da opressão, e nem sabem.

Não tenho o sol escondido no meu bolso de palavras. 
Sou simplesmente um homem para quem já a primeira e desolada pessoa do
singular foi deixando, devagar, sofridamente de ser, para transformar-se
– muito mais sofridamente – na primeira e profunda pessoa do plural.

Não importa que doa: é tempo de avançar de mão dada 
com quem vai no mesmo rumo, mesmo que longe ainda esteja de aprender a conjugar o verbo amar.
É tempo sobretudo de deixar de ser apenas a solitária vanguarda de nós mesmos. 

Se trata de ir ao encontro. 
(Dura no peito, arde a límpida verdade dos nossos erros).
Se trata de abrir o rumo. 
Os que virão, serão povo, e saber serão, lutando.

Chico Alencar
Deputado Federal, PSOL/RJ.