Marielle estava sendo levada
Da África para o Brasil
Num navio negreiro
Quando um carro emparelhou com o navio
E deram quatro tiros a cabeça dela

Tempos depois
Marielle pegou um pau-de-arara
E foi pro Rio de Janeiro
Na estrada, um carro emparelhou com o caminhão
E deram quatro tiros na cabeça na cabeça dela

Há oito meses
Marielle se encontrava na Casa das Pretas
E logo depois que saiu
Um carro emparelhou com o seu
E deram quatro tiros a cabeça dela

E depois
O corpo foi velado
Sem que o caixão fosse aberto

Quem suportaria ver naquele rosto sem face, esfacelado?
Quem deixaria aquele corpo fugir, sem sua cabeça, vagando?
Cuidamos dela: não abrimos o caixão.

De repente, lá de dentro sua voz voou pelos ares
E todos aqui de fora responderam
Ela não emudeceu
Ela virou muda
E muito dela vai brotar
Muito vai florir
Muito desabrochará
Planta que molha a terra

(Mônica Dantas)