Ói eu aqui!

“Aldir Blanc escrevia n’O Globo todo último domingo do mês. Escrevia: com a nova formatação editorial, nosso amigo, grande letrista e músico, deixou de ser articulista mensal”.

Já não escrevo coluna mensal mas continuo sendo Aldir Blanc. Agora mais do que nunca pelas circunstâncias da barbárie e esculhambação diárias a que somos submetidos.

Comecemos o bala com bala: Gostaria muito de saber o que os comentaristas de economia das redes de TV convencionais e por assinatura estão bebendo. Parei com o goró em 2010, mas quem sabe… Homens sérios e moças com sorrisos amarelos estão sempre enxergando “recuperações” e “crescimentos” inexistentes, a passo de formiguinha…

Bom, vamos então ao crescimento na real: Aumentou, depois de décadas, a mortalidade infantil! Parabéns, Temereca. Esse crescimento verdadeiro traz no bojo a volta pra valer de várias doenças: a febre amarela, a tuberculose, a sífilis, a AIDS, dengue, zika, milhões de crianças na mais completa miséria, trabalho escravo por todo lado, a educação dilacerada graças àquela besta quadrada que preferia frotas de cocô a Paulo Freire, o que as vacas de presépio da CIA pertencentes ao Moribundas Brasil Lodo também apoiaram com a empáfia dos estultos que levam grana de fora para plantar fake news no Facebosta.

Médicos amigos avisam que a extrema incompetência de Alkmin, cãoditato à presidência, com o apoio maciço da canalha, vai custar muitas vidas por não ter conseguido conter a febre amarela. A doença é sazonal e deve voltar com força em todo o país no próximo verão. Será que o centrão vai matar mosquito? Loda-se, Alkmin! Seus cúmplices roubaram durante décadas nos trens metropolitanos de São Paulo, nos rodoanéis (melhor botar no plural porque ignoramos a maioria dos crimes cometidos), até na merenda escolar meteram a mão-grande. Indiciaram uns esbirros mas eles vão, como é praxe. Por que não há presos da Samarco, responsável pela pior tragédia ambiental do país, com 19 mortos (por baixo)? Cadê os vilões de Furnas na cadeia, um escândalo de proporções banestaduais?

Mineirinho, Santo, Careca, Três Dedos, Bolo Fofo, etc, podem se candidatar pra garantia de foro, forro e furo, mas Lula, não. Continuam trambicando Sarna Sarney, Réu-nan, Collor, Lúcio Geddelll Bunker (brô do Chorão), Rameiro Jukenga, centenas de malfeitores só nas duas casas de tolerância do Plabaixo. Também esses “acordos de leniência” têm fedor de tramoia da Lava Jegue. Vagabundos faturam bilhões, dizem o que os farejadores querem, e vão para as mansões, devolvendo a milésima parte do que garfaram. O samurai Fugiro (homenagem aos 19 bilhões de dólares, mandados a paraísos fiscais na esbórnia paranaense, ninguém preso) Tukanomoro não vê que os números tungados não batem com as quantias devolvidas? E tome xaropada “estamos colaborando com os amigos, desculpem, membros do MP, e nos guiando dentro da reforma ética…” Cascata. Vão roubar tudo de novo. Imparcialidade o cacete!

A topo Plus-Size Marunbola continua mentindo sobre suas viagens das Arábias e outras sujeiras. De frente ou de costas, a verdade é que o cara parece um procedimento mal-ajambrado do Dr Bumbum. Lembra muito aquela musiquinha da minhoca: “a boca é do outro lado”…

Está com a banda boa da PF e com o ministro Barroso, um dos raríssimos juízes em que (ainda) levo fé, a lavagem de $$$ feita pelo mudo coronel Lima pra Temereca, via Argeplan, Rodrimar – da zona manjada do porto de Santos até obrar na casa de Maristela. Se der pizza, desisto e vou finalmente pescar.

Uma palavrinha especial para o sinistro da Inçegurân$ia. Perdigotou que o caso Marielle “é complexo” pela ligação entre os mandantes, uma declaração pública de fracasso. Vai começar a zurrar a qualquer momento. Quando era da “defe$a”, vocês lembram?, declarou com a certeza pétrea dos idiotas: “Não há a menor possibilidade de acordo entre a Embraer e a Boeing por motivos estratégicos”. Só que o acordo saiu e pode demitir 21 mil brasileiros. Também bravateou: “O roubo de cargas acabou”. Aumentou em todo o Brasil. Imagino que a cada besteira dessas, o líder Robertov deve sofrer com o fantoche. Outro exemplo da bagunça: o braço direito de Fernadinho Beira-Mar saiu da cadeia pela porta da frente, graças a um “erro judiciário”…

Não se pode esquecer que o regime econômico do presidrácula é livre mercado com tabelamento (risos).

No Rio, sob intervenção fracassada, acumulam-se estatísticas horrendas, enquanto Crivellório ataca a Pedra do Sal, e promete um país evangélico. Vade retro.

Falando no pré-feito do pessoal bunda-de-fora: um amigo muito religioso teve um problema de disfunção erétil. Deve procurar Dona Carmen? Quanto está o câmbio do boquete abençoado?

Já que o conservadorismo está na moda, quando os filhos e netos dos gatunos da tucanagem, dos farristas do centrão, dos movimentos fascistas, dos ruralistas, dos fiesposos, dos inquisidores de Cudomundo, dos empreiteiros, dos banqueiros (meio trilhão de lucro só nos cartões de crédito), perguntarem por que estão morrendo, será justo ouvirem a resposta de um conservador que pelo menos trabalhava duro, o Bardo do Império, Rudyard Kipling:

– Porque nossos pais mentiram.

Rio, 29/VII/2018

Aldir Blanc

Hilda e Marielle

Em tempos de arrogância da ignorância, é preciso proclamar o valor da inteligência sensível. Na quadra sombria que atravessamos, cumpre buscar seres de luz.

Hilda Hilst (1930-2004) foi a homenageada da Festa Literária de Paraty (Flip) deste ano. Ela sabia da nossa fragilidade: “Amamos tanto… E a perda é cotidiana e infinita”. Ela, amante da existência, sabia também que ser é duvidar. E que para crescer é preciso indagar sempre: “Diante de Deus, serei aquele amontoado de perguntas. (…) Meu Deus, por que o mundo me comove tanto?”.

Marielle Franco (1979-2018) completaria 39 anos na última sexta, 27 de julho. Naturalmente, ela foi muito lembrada na Flip. Marielle, devota da alegria, sabia da violência do sistema: “Quantos mais terão que morrer até que essa guerra acabe?”. Marielle sabia também que viver é renovar-se, é crescer. É saber-se acompanhada na dura caminhada pela transformação social: “Eu sou porque nós somos. A gente precisa passar por 2018. Tem muita vida pra gente percorrer. Não pode acabar em 2018!”.

Prefiro escrever sobre Hilda e Marielle no presente, pois as sinto assim, aqui e agora. Para além das nossas crenças – ou aquém delas – os amado(a)s ou admirado(a)s que se foram continuam em nós, vivíssimos na memória, na saudade, na obra que deixaram. Falar deles no verbo presente é belo inconformismo. Recusamos ser real não mais poder ouvir seu verbo candente, em prosa, riso ou verso. Não aceitamos a ausência, o vazio, a “nadificação” de quem espalhou tantos benefícios, mesmo em pouco tempo de existência terrena.

Sim, há a dor da ruptura drástica da forma, que é a morte corporal. Há o espanto permanente de saber que aquela pessoa física não mais chegará, com seu abraço, seu sorriso, sua poesia, sua tristeza, sua angústia, sua alegria. “Me fizeram de pedra, quando eu queria ser feita de amor”, reclamou Hilda. Toda morte é uma espécie de petrificação.

Mas o ser humano é capaz de ressurreição, de reinvenção, de recomeços: “o Espírito dorme no mineral, sonha no vegetal, se agita no animal e desperta na Humanidade!” (Leon Denis, 1846-1927). Nossos mortos vivem em nós. Nossa fecunda imaginação, alimentada pela teimosia da fé, da esperança contra toda desesperança, rompe limites e nos leva do imanente ao transcendente. Hilda ainda lembra que “há sonhos que devem ser ressonhados, projetos que não podem ser esquecidos”.

Eu a vejo agora, abraçada à Marielle, instigando nosso dever de prosseguir, apesar da escuridão e da estupidez que envolve o Brasil e o mundo: “e no entanto, refaço minhas asas a cada dia. E no entanto, invento amor como as crianças inventam alegria”.

Por Chico Alencar, professor, escritor e deputado federal (PSOL/RJ)