Em tempos de arrogância da ignorância, é preciso proclamar o valor da inteligência sensível. Na quadra sombria que atravessamos, cumpre buscar seres de luz.

Hilda Hilst (1930-2004) foi a homenageada da Festa Literária de Paraty (Flip) deste ano. Ela sabia da nossa fragilidade: “Amamos tanto… E a perda é cotidiana e infinita”. Ela, amante da existência, sabia também que ser é duvidar. E que para crescer é preciso indagar sempre: “Diante de Deus, serei aquele amontoado de perguntas. (…) Meu Deus, por que o mundo me comove tanto?”.

Marielle Franco (1979-2018) completaria 39 anos na última sexta, 27 de julho. Naturalmente, ela foi muito lembrada na Flip. Marielle, devota da alegria, sabia da violência do sistema: “Quantos mais terão que morrer até que essa guerra acabe?”. Marielle sabia também que viver é renovar-se, é crescer. É saber-se acompanhada na dura caminhada pela transformação social: “Eu sou porque nós somos. A gente precisa passar por 2018. Tem muita vida pra gente percorrer. Não pode acabar em 2018!”.

Prefiro escrever sobre Hilda e Marielle no presente, pois as sinto assim, aqui e agora. Para além das nossas crenças – ou aquém delas – os amado(a)s ou admirado(a)s que se foram continuam em nós, vivíssimos na memória, na saudade, na obra que deixaram. Falar deles no verbo presente é belo inconformismo. Recusamos ser real não mais poder ouvir seu verbo candente, em prosa, riso ou verso. Não aceitamos a ausência, o vazio, a “nadificação” de quem espalhou tantos benefícios, mesmo em pouco tempo de existência terrena.

Sim, há a dor da ruptura drástica da forma, que é a morte corporal. Há o espanto permanente de saber que aquela pessoa física não mais chegará, com seu abraço, seu sorriso, sua poesia, sua tristeza, sua angústia, sua alegria. “Me fizeram de pedra, quando eu queria ser feita de amor”, reclamou Hilda. Toda morte é uma espécie de petrificação.

Mas o ser humano é capaz de ressurreição, de reinvenção, de recomeços: “o Espírito dorme no mineral, sonha no vegetal, se agita no animal e desperta na Humanidade!” (Leon Denis, 1846-1927). Nossos mortos vivem em nós. Nossa fecunda imaginação, alimentada pela teimosia da fé, da esperança contra toda desesperança, rompe limites e nos leva do imanente ao transcendente. Hilda ainda lembra que “há sonhos que devem ser ressonhados, projetos que não podem ser esquecidos”.

Eu a vejo agora, abraçada à Marielle, instigando nosso dever de prosseguir, apesar da escuridão e da estupidez que envolve o Brasil e o mundo: “e no entanto, refaço minhas asas a cada dia. E no entanto, invento amor como as crianças inventam alegria”.

Por Chico Alencar, professor, escritor e deputado federal (PSOL/RJ)