Das fraquezas e das franquezas

Quem gosta de futebol ficou chateado com a eliminação da nossa seleção na Copa. Quem entende de futebol sabe que derrota faz parte. Nenhum time é invencível. Como na vida, o mais importante é a forma de reagir aos reveses. Gostei da franqueza de Neymar: “esse é o momento mais triste da minha carreira. Difícil encontrar forças pra querer voltar a jogar futebol”. Por óbvio ele voltará, até pelas somas milionárias que recebe, mas provavelmente mais maduro, acrescentado.

Na política deveria ser assim também. Deveria. Pouquíssimos conseguem demonstrar abatimento quando derrotados – e não me refiro apenas a derrotas eleitorais. Revés na política devia ser, por exemplo, ser alvo de investigações a partir de robustas evidências. Isso tem sido constante na vida nacional. Mas a maioria absoluta dos atingidos não se abala e segue impávida: “estou tranquilíssimo, minha inocência restará provada” – é o mantra.

Entre nós, a regra dominante parece ser a do “mudar para manter tudo como está”. Crivella, o prefeito que ia “cuidar das pessoas”, é flagrado “cuidando” privilegiadamente dos seus “irmãos de fé”, em cirurgias e isenções fiscais, “para aproveitar a oportunidade que Deus deu de governar o Rio”. Nas articulações para compor alianças na disputa pelo governo do Rio de Janeiro há os que buscam o apoio do MDB, “para recuperar o estado, que foi à falência”. Busca-se renovar uma roupa já rota com o mesmo pano esfarrapado que se degradou.

Para o nosso futebol, espera-se revisão profunda, análise dos problemas reais, reconhecimento de erros, superação. Na política vigente no Brasil, desprezada a autocrítica, partidos mudam de nome, mas prosseguem com as mesmíssimas práticas. Logo “os alquimistas estarão chegando”, com sorrisos, promessas e muito dinheiro – público, desta vez! – para captar votos. Apesar dos enormes escândalos que levaram a política institucional à eliminação na credibilidade popular, prosseguem o vício patrimonialista, o servilismo aos grandes grupos econômicos, o descompromisso com a ética, o racismo disfarçado e a arte de manipular para se perpetuar no poder.

Essa miséria política é também cultural, aceita por setores da sociedade. Semana passada, empresários aplaudiram um deputado presidenciável que confessou estar “perdendo a alegria de viver por não poder mais contar piadas de afrodescendentes, cearenses e goianos”! Agora diz não saber se o jornalista Vladimir Herzog foi morto sob tortura, pois “não estava lá e suicídio acontece”.

Ainda bem que em outros lugares do mundo há sinais de esperança. No sofrido México, as urnas consagraram López Obrador, dando maioria também no Parlamento ao seu Movimento de Renovação Nacional (MORENA). Falando para uma multidão na Praça do Zócalo, o vitorioso jurou “não mentir, não trair e falar sempre a verdade”. Na Tailândia, uma coalizão internacional solidária se empenha em salvar meninos isolados numa caverna desde o mês passado. Fiat lux, entre nós também!

Por Chico Alencar, professor de História, escritor e deputado federal (PSOL/RJ).

Governo adia votação de MPs dos agentes comunitários

A base do governo tentou mais uma vez dar um golpe no Plenário da Câmara.

Na noite de quarta (04/07/2018), estava na pauta a Medida Provisória 824, sobre a Política Nacional de Irrigação, que é um retrocesso em vários de seus artigos. Por conta da votação desta MP – a única na pauta naquele momento – que o PSOL pediu novo painel.

A base do governo não manteve seus deputados em plenário para debatermos a MP do agentes. Os do PSOL na Câmara estavam todos presentes.

Ao contrário do que afirma nota circulada na internet, o PSOL vota a favor dos 365 mil agentes comunitários de saúde e de combate a endemias e pediu para que essa MP fosse colocada em pauta.

Foi o governo que esvaziou o plenário e impediu sua votação.

Na próxima semana, a MP dos agentes de saúde será incluída na pauta, e o PSOL votará a favor.

Mitos com pés de barro

“Nesta terra a dor é grande/ a ambição pequena/carnaval e futebol”
(A Luz de Tieta, Caetano Veloso)

O gosto pelo futebol, que já foi maior em épocas passadas, vem também do fato dele ser uma metáfora da vida. Nas partidas e torneios, há ambição, dor, decepção e alegria. Futebol é um esporte que precisa ser jogado coletivamente. Como na trajetória pessoal e das sociedades, pressupõe derrotas e vitórias, conquistas e fracassos. E está carregado de interesses que vão bem além do próprio esporte.

O futebol está, cada vez mais, inserido na globalização financeira, na economia do mercado total. Transações milionárias, grandes centros mais pujantes economicamente concentrando os melhores jogadores (apenas três dos vinte e três da seleção de Tite jogam no Brasil). Meninos que despontam já cultivam o “sonho europeu” e os que ascendem à titularidade em seus clubes logo são vendidos para o exterior, por somas inimagináveis.

Mesmo assim a paixão perdura – e nacionalizada: “Coutinho se formou no Vasco, Thiago Silva aprendeu no Fluminense, Neymar começou no Santos, Gabriel Jesus veio do Palmeiras…”. Persiste a beleza dos grandes times também. “Futebol é equilíbrio”, dizia João Saldanha, conhecedor profundo do “balé bruto” que os antigos locutores chamavam de “o velho esporte bretão”. Brasileiríssimo desde que aqui chegou, em 1895, pelas mãos (as regras, a bola, a bomba) e os pés de Charles Muller.

Na produção do imaginário social, o objetivo é a criação do mito do super-craque, do super-homem genial que pode resolver tudo sozinho. O “self made men” capitalista está no processo que forja o ídolo. Como diz o cientista social Luiz Alberto Gomes de Souza, “há muitos interesses econômicos na construção de mitos: é o velho individualismo da modernidade internacionalizada, regado a milhões de dólares”.

Difícil para um jovem, quase sempre vindo da pobreza, carregar o peso de ser imbatível, de tudo resolver, de ter sempre ao menos lampejos que garantem o esquadrão invicto. A expectativa e a cobrança são imensas. O narcisismo induzido, a máquina publicitária que dá a “marca” para vários produtos exige uma baita estrutura psicológica, que poucos têm.

A percepção do mundo e do poder de influência para melhorá-lo é de pouquíssimos craques: a grande maioria é autorreferenciada e se esquece com rapidez da sociedade injusta e do funil da ascensão social imposto à maioria. Não são muitos os Afonsinhos, os Sócrates, os Tostões, os Reinaldos, os Juninhos Pernambucanos, bons de bola e bons de cuca, cuja consciência da estratificação de classe não tirou a classe no domínio da bola.

O retorno precoce de Messi, Cristiano Ronaldo e Iniesta para seus países, despedidos da Copa da Rússia, apenas os torna mortais, humanos, falíveis. A realidade gritante se impõe: futebol é esporte coletivo e o conjunto é fundamental. Time é de onze, não de um. Como na vida.

Por Chico Alencar, professor, escritor e deputado federal (PSOL/RJ).