A Declaração de Independência dos Estados Unidos da América do Norte, de 1776, afirmou o “direito à busca da felicidade”. Outro dia ouvi que um filósofo alemão – além dos gregos, os alemães também são craques em filosofar – propõe, nos ásperos tempos em que vivemos, uma alteração, louvando a… felicidade da busca! Antes dele, cujo nome esqueci, o velho Marx já proclamara que “a ideia da felicidade está na luta, mais que na conquista”.

Constato que é isso mesmo: felicidade plena nunca alcançaremos, a não ser no plano utópico da vida após nossa vida terrena, para quem crê. Por aqui, a felicidade possível é um estado gostoso e passageiro. Um céu azul sujeito a chuvas e tempestades. Nossa condição humana é esta, de precariedade, mas revoltar-se contra isso só traz mau humor, cara amarrada e até depressão. Como ensinou mestre Vinícius de Moraes (1913-1980), que curtiu como poucos a existência (e também tinha seus pesados momentos de baixo astral e ressaca), “é melhor ser alegre que ser triste/ a alegria é a melhor coisa que existe”.

Sim, o mais importante é a felicidade da busca. É ter satisfação de estar a caminho, de batalhar sempre. Manoel de Barros (1916-2014) sabia louvar isso: “a maior riqueza do homem é a sua incompletude. Nesse ponto sou abastado”. Procurar já é um começo de encontrar. E estar em movimento, atrás da tal felicidade, já é ser um pouquinho feliz.

Sentir felicidade na busca é ter pique e ânimo para superar dificuldades, para melhor viver. Viver que é necessariamente com-viver, viver com os outros, conviver. Como aprendemos logo que deixamos a primeira infância, mesmo sem conhecer a sexagenária bossa nova, “é impossível ser feliz sozinho”. A melhor educação é a que gera descentramento, percepção da alteridade, do outro que me complementa. Outro que é meu meio humaníssimo de realização, não o adversário a ser abatido. As mãos das crianças precisam ser educadas para o toque da amizade, da ternura, não para o gestual que destrói. Saudades do Henfil (1944-1988): “amar os amigos, desarmar os inimigos”.

Curtir a felicidade da busca é ter projeto coletivo de sociedade e aspirar deixar a humanidade um pouco melhor depois da nossa passagem. É sair do mundinho cinza e fútil do individualismo e da ideologia do consumo contínuo como regra de vida.

Isso de felicidade na busca me faz relembrar o antropólogo, escritor, ministro e senador Darcy Ribeiro (1922-1997): “sou um homem de causas, vivi sempre pregando, lutando como um cruzado pelas causas que comovem. Elas são muitas, demais: a salvação dos índios, a escolarização das crianças, a reforma agrária, o socialismo em liberdade, a universidade necessária. Na verdade, somei mais fracassos que vitórias em minhas lutas, mas isso não importa. Horrível seria ter ficado ao lado dos que venceram nessas batalhas”.

Por Chico Alencar, professor, escritor e deputado federal (PSOL/RJ)