Está em qualquer dicionário: hipocrisia é falsidade, dissimulação, fingimento. Está na vida política, apesar da revelação da roubalheira sistêmica. A turma dos “amigos do Erário” não aprende e quer manter a combalida República brasileira como o reino da hipocrisia.

Exemplos não faltam: um dos mais deploráveis é o jogo de sedução que alguns partidos e candidatos ao governo do país fazem ao tal Centrão. O nome é enganoso. Centrão é, na realidade, um “Direitão”, um bloco de partidos que opera na base do toma lá dá cá, do fisiologismo, da corrupção. Seus principais líderes estão condenados (alguns até já cumpriram pena) ou sob investigação na Lava Jato. Mas seu poder é atraente e, escrúpulos às favas, houve uma corrida entre candidaturas, à direita e à esquerda, para atrair aqueles que ainda se arvoram como “fiel da balança” da política nacional. Se assim for, estamos mal.

Outro fato recente que revela a corrosão dos valores da ética pública no Brasil foi a reunião do prefeito do Rio no Palácio da Cidade com 250 pastores e alguns pré-candidatos a deputado. Mais do que o evento, “clama aos céus” (se Deus é mesmo o Senhor da Justiça) o que lá foi dito. Além das promessas de facilitar a vida dos “irmãos de igreja” nos hospitais e no fisco, o líder maior do PRB (Partido Republicano Brasileiro), “esquecido” de que a República é laica, proclamou que “só o povo evangélico pode mudar esse país (…). Nós somos a esperança. Pegamos a oferta do povo, levamos ao escritório, contamos tudo e construímos igrejas. É esse Brasil evangélico que vai dar jeito na pátria”. Tudo isso em pleno final da segunda década do século XXI, onde supunha-se que a noção do Estado Laico e do respeito à diversidade – inclusive na esfera da crença religiosa – já estivessem consolidados.

Mas onde está a hipocrisia nesse rumoroso caso? – Indagaria um leitor mais exigente. Está não no grave fato relatado, mas nas reações que ele provocou. “O ato teve como objetivo prestar contas e divulgar serviços importantes para a sociedade”, escreveu em nota a assessoria de imprensa da Prefeitura carioca. Os pré-candidatos a governador Eduardo Paes (DEM) e Garotinho (PRP) não quiseram comentar nada, e o pré-candidato Romário (Podemos) não pode ser localizado… Explica-se tamanha omissão: o eleitorado evangélico no estado do Rio de Janeiro corresponde a cerca de 30% da população, isto é, em torno de 4,8 milhões de pessoas. Melhor fingir que não está nem aí que correr o risco de se indispor com parte desses fiéis (destaque-se que muitos não aprovaram a atitude de Crivella).

Hipocrisia também houve no episódio em que um pré-candidato a presidente induziu uma menininha a fazer o gestual de quem está atirando com uma arma de fogo. A atitude, em si, é abominável: educação para o ódio, para considerar o outro como alguém a ser eliminado. Mas a hipocrisia mesmo está na justificativa para o fato, dada por um correligionário de Bolsonaro: “é um gesto cristão costumeiro”. Não consta na Bíblia, não está nos evangelhos, mas…

Isso é pouco, perto do que está por vir. Em agosto, o festival de hipocrisia chega com tudo.

Por Chico Alencar, professor de História, escritor e deputado federal (PSOL/RJ)