“Nesta terra a dor é grande/ a ambição pequena/carnaval e futebol”
(A Luz de Tieta, Caetano Veloso)

O gosto pelo futebol, que já foi maior em épocas passadas, vem também do fato dele ser uma metáfora da vida. Nas partidas e torneios, há ambição, dor, decepção e alegria. Futebol é um esporte que precisa ser jogado coletivamente. Como na trajetória pessoal e das sociedades, pressupõe derrotas e vitórias, conquistas e fracassos. E está carregado de interesses que vão bem além do próprio esporte.

O futebol está, cada vez mais, inserido na globalização financeira, na economia do mercado total. Transações milionárias, grandes centros mais pujantes economicamente concentrando os melhores jogadores (apenas três dos vinte e três da seleção de Tite jogam no Brasil). Meninos que despontam já cultivam o “sonho europeu” e os que ascendem à titularidade em seus clubes logo são vendidos para o exterior, por somas inimagináveis.

Mesmo assim a paixão perdura – e nacionalizada: “Coutinho se formou no Vasco, Thiago Silva aprendeu no Fluminense, Neymar começou no Santos, Gabriel Jesus veio do Palmeiras…”. Persiste a beleza dos grandes times também. “Futebol é equilíbrio”, dizia João Saldanha, conhecedor profundo do “balé bruto” que os antigos locutores chamavam de “o velho esporte bretão”. Brasileiríssimo desde que aqui chegou, em 1895, pelas mãos (as regras, a bola, a bomba) e os pés de Charles Muller.

Na produção do imaginário social, o objetivo é a criação do mito do super-craque, do super-homem genial que pode resolver tudo sozinho. O “self made men” capitalista está no processo que forja o ídolo. Como diz o cientista social Luiz Alberto Gomes de Souza, “há muitos interesses econômicos na construção de mitos: é o velho individualismo da modernidade internacionalizada, regado a milhões de dólares”.

Difícil para um jovem, quase sempre vindo da pobreza, carregar o peso de ser imbatível, de tudo resolver, de ter sempre ao menos lampejos que garantem o esquadrão invicto. A expectativa e a cobrança são imensas. O narcisismo induzido, a máquina publicitária que dá a “marca” para vários produtos exige uma baita estrutura psicológica, que poucos têm.

A percepção do mundo e do poder de influência para melhorá-lo é de pouquíssimos craques: a grande maioria é autorreferenciada e se esquece com rapidez da sociedade injusta e do funil da ascensão social imposto à maioria. Não são muitos os Afonsinhos, os Sócrates, os Tostões, os Reinaldos, os Juninhos Pernambucanos, bons de bola e bons de cuca, cuja consciência da estratificação de classe não tirou a classe no domínio da bola.

O retorno precoce de Messi, Cristiano Ronaldo e Iniesta para seus países, despedidos da Copa da Rússia, apenas os torna mortais, humanos, falíveis. A realidade gritante se impõe: futebol é esporte coletivo e o conjunto é fundamental. Time é de onze, não de um. Como na vida.

Por Chico Alencar, professor, escritor e deputado federal (PSOL/RJ).