A morte como política pública

Alessandra Soares, 26 anos, moradora do morro da Coroa, no Rio. Mãe de uma bebê de dois meses e de uma menininha de dois anos. Marido desempregado. Alê, como era chamada por parentes e amigos, foi morta por uma bala “perdida” quando preparava o almoço, em casa. Bala é achada em algum corpo, quase sempre de pessoas mais vulneráveis.

No mesmo trágico dia 6 de junho, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgavam o Atlas da Violência, registrando 62.517 mortes violentas no Brasil em 2016, com índice de 30,3 vítimas fatais por 100 mil habitantes, 30 vezes maior que o da Europa. Esse verdadeiro genocídio tem cor e idade: sete a cada 10 mortos no país são negros, 53,7% têm entre 15 e 29 anos!

Desde fevereiro o Rio de Janeiro está sob intervenção militar na área de Segurança. Pois de lá para cá a situação só piorou! Não há sequer relatórios públicos sobre o que tem sido feito. O conflito entre facções armadas do tráfico de drogas, e entre elas e milícias, se ampliou a ponto de ocorrerem tiroteios frequentes em toda a capital e Baixada, inclusive em áreas ditas “nobres”. Quem mais sofre, como sempre, são os mais pobres: ao menos 30 comunidades faveladas estão atemorizadas pela guerra aberta entre grupos e com ações policiais que nada “pacificam”. Sete corpos foram encontrados agora no costão da Urca, perto do Pão de Açúcar. O Cristo Redentor, outra símbolo mundial da Cidade Maravilhosa, está crucificado.

Cristo crucificado, por exemplo, na execução da vereadora do PSOL Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes, barbárie que completa 90 dias nesta quinta-feira. Três meses sem elucidação, a indicar que tem gente poderosa, do aparato estatal, envolvida no abominável crime. Cristo Redentor assassinado, mas com uma diferença em relação aos 90% de homicídios não esclarecidos no Brasil: no caso de Jesus de Nazaré, soube-se de imediato quem foram seus algozes, tanto os torturadores que o açoitaram e o pregaram na cruz quanto os mandantes, o poder político e religioso do Império, à época.

Também na semana passada, Maria José, mãe do policial Douglas Fontes, lotado em Caxias (RJ), teve parada cardíaca ao ver o corpo de seu filho no chão, cravejado de balas. Não resistiu à maior dor que pode existir, que é a de perder um filho.

Esses dramas cotidianos têm marcado o Brasil e, em especial, o Rio de Janeiro. Resultam de uma ordem social continuadamente injusta e de incompetência total para se implementar uma política de Segurança Pública responsável. É urgente redefinir a inócua “guerra às drogas”, efetivar a captura de armas e o controle das munições e reformar profundamente as polícias e o sistema penitenciário.

Aprendemos que omissão é indução à ação contrária do que se pretende combater. Quando não se protege a vida, a morte toma conta de tudo.

Por Chico Alencar, professor, escritor e deputado federal (PSOL-RJ)

No ambiente, por inteiro

Hoje quero refletir com você sobre… nós! Nós, os humanos, que somos compostos da mesma matéria dos nossos semelhantes animais e vegetais. Nós, que temos alguns elementos físico-químicos que há nos minerais. Nós, que somos Terra, que somos planetários.

Há uma nova consciência que, superando a condição de “dominadores” da natureza, percebe-nos como parceiros de tudo o que pulsa e constitui. Somos água, terra, fogo e ar. Pela primeira vez em dois milênios de Igreja Católica, um papa, Francisco, lançou uma linda encíclica sobre isso: Laudato sì – “Sobre o cuidado da casa comum”. Celebrar a Semana do Meio Ambiente significa pensá-lo por inteiro: nós dentro dele.

É imperativo também bradar contra riscos e retrocessos. O modelo produtivista hegemônico no mundo leva a uma urbanização irracional, que cria grandes megalópoles que soterram cursos d´água e produzem objetos descartáveis que se acumulam. As áreas pobres dos grandes aglomerados são desassistidas: no Brasil, 48% das casas ainda não têm coleta de esgoto! Elas são movidas sobretudo a energia fóssil, poluidora, engarrafadora. A recente greve dos caminhoneiros colocou a nu, além da exploração da categoria, os perigos dessa dependência.

No Brasil atual, o meio ambiente está sob forte ataque. Temos nada menos que 2.775 espécies ameaçadas, incluindo insetos polinizadores. Desses, 290 são vegetais, como o faveiro-de-wilson. A conjuntura agrava o quadro: o (des)governo Temer realiza ofensiva jamais vista. Ele despreza a ecologia, colocando os órgãos públicos de proteção à nossa rica biodiversidade à mercê dos acertos partidários, indicando para cargos de direção gente sem competência e compromisso. Também oferece Medidas Provisórias – como a 820/18 – que abrem espaço a “jabutis” para favorecer a intervenção em terras indígenas, e sua segmentação. Sua base agronegociante de sustentação, além da famigerada PEC 215, que acaba com a possibilidade de criação de áreas indígenas, se empenha agora na aprovação do PL 490/07 e no PL do Veneno, que libera amplamente o uso de agrotóxicos.

Por outro lado, os biomas do Cerrado, da Caatinga e dos Pampas, que representam 35% do território brasileiro, continuam a sofrer forte barreira no Congresso para serem inscritos na Constituição como patrimônio nacional.

Mas não basta denunciar essa ofensiva e resistir a ela. O problema não é só do Poder Público e das empresas devastadoras e poluidoras: é também de cada um de nós. Vale nos indagarmos, por coerência: como estamos tratando o nosso lixo, ainda que poucas cidades realizem a coleta seletiva? Fazemos uso esbanjador da preciosa água que chega às nossas torneiras? A indução ao consumo contínuo nos atinge, de modo a comprarmos mais coisas e gastarmos mais energia do que o necessário?

Mais do que nunca é preciso lembrar do ensinamento de Albert Einstein: “a natureza, quando agredida, não se defende: ela apenas se vinga”. Saibamos ser parte dela, e não seus algozes!

Por Chico Alencar, professor, escritor e deputado federal (PSOL/RJ).