Trabalho vem de ‘tripalium’, instrumento de suplício na velha Roma. Mas trabalho não é, ou não devia ser, a pena que se paga por ser gente. É, ou devia ser, o que nos torna gente. O que dá sentido ao nosso estar no mundo, que sempre é ser-com-os-outros.

Trabalho não é a condenação sobre Adão: “agora vais ganhar o pão com o suor do teu rosto”, diz o Deus severo do Antigo Testamento. O poeta foi mais generoso: “a massa que faz o pão vale a luz do teu suor”.

É o trabalho que cria toda riqueza: dele vem o computador em que escrevo agora, a energia que acende a tela, a minha alfabetização, o meu meio de locomoção, o teto, o pão. Aprendi com meus pais, ambos vindos do Brasil profundo, que tudo sai da terra – desde que cuidada, trabalhada. Menino, gostava de repetir, como um mantra: “E o pano? Vem da terra. E o lápis? Vem também. Nossa água? Vem da fonte. E a casa? Terra tem”.

O trabalho pode gerar bens materiais palpáveis, que nos sustentam, e bens simbólicos, que alimentam nosso espírito, saciando – sempre provisoriamente – nossa sede de sentido. Todo artista é um trabalhador!

O dinheiro, que acumulado e investido vira capital, só existe por causa do trabalho. Esse equivalente geral, meio de troca, é moeda, é papel, é objeto resultante do trabalho de moedeiros, fundidores, gráficos. Mas por ele, mal distribuído (e mal acumulado), se mata…

Na caminhada de avanços e recuos da Humanidade, o século XIX foi marcante para a valorização do trabalho. A própria Igreja Católica, através da encíclica do papa Leão XIII (1810-1903), “Rerum Novarum” (“Das Coisas Novas”), definiu a superioridade do valor do trabalho sobre o capital, denunciando “a usura voraz de um pequeno número de ricos e opulentos” e “o infortúnio e miséria da maioria”. Afirmou a função social da propriedade. Era um eco e uma resposta ao repto do Manifesto Comunista de 1848, de Marx e Engels, que analisava a condição de exploração dos operários na sociedade capitalista e conclamava: “trabalhadores de todo o mundo, uni-vos!”.

O 1º de maio também tem origem naquele século: em 1886 os operários de Chicago não aceitaram mais as exaustivas jornadas de 12, 14 horas de trabalho, inclusive para crianças, pagas com salários de fome. Sua greve foi reprimida com violência e mortes. Por gritar pelo direito à vida digna vários a perderam. Os EUA, meca do capitalismo no mundo, não celebra essa data planetária até hoje…

O Dia do(a) Trabalhador(a) é para reafirmar também o direito ao trabalho, negado hoje a 13 milhões e 700 mil brasileiro(a)s. Reconhecer o(a) trabalhador(a) é assegurar-lhe ocupação criadora e direitos. Agostinho Neto (1922-1979), primeiro presidente da República Popular de Angola, disse bem sobre o povo africano na diáspora: “minhas mãos colocaram pedras nos alicerces do mundo, mereço meu pedaço de pão”.

Por Chico Alencar, professor, escritor e deputado federal (PSOL/RJ) 

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