A primeira entidade de nível nacional que se manifestou oficialmente sobre as eleições de outubro próximo foi a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), reunida na sua 56ª assembleia geral, em abril.

Na linha do papa Francisco, que quer uma Igreja Católica despojada e inserida no mundo, a CNBB fixou diretrizes importantes em seu documento “Compromisso e esperança”, dirigido ao povo brasileiro. Se todas as pessoas de boa vontade, religiosas ou não, as seguirem, as urnas impulsionarão mudanças importantes no Brasil.

A CNBB lembra que nenhum cristão pode desconhecer “a dimensão política da fé”, sendo alienado: “a razão da verdadeira política é a construção do bem comum”. A Igreja “não pode nem deve ficar à margem da luta pela justiça”. Esta remete à opção preferencial pelos pobres e excluídos: “sem tirar os pés do duro chão da realidade, somos movidos pela esperança, que nos compromete com a superação de tudo o que aflige o povo”.

O episcopado reconhece a “aguda crise que abala fortemente as estruturas democráticas do país”. Menciona um “cenário desolador”, marcado por: 1- corrupção de agentes públicos e privados, com “raízes cada vez mais alastradas e profundas”; 2- aumento do desemprego, da pobreza e dos que vivem em situação de vulnerabilidade; 3- crescimento da violência no campo e na cidade, que ceifa vidas – “sobretudo de mulheres, pobres, jovens, negros e indígenas”; 4- retirada de direitos e conquistas sociais; 5- carência de políticas públicas consistentes;  6- discursos e atos de intolerância e de ódio; 7- “economia que submete a política aos interesses do mercado”.

Para a CNBB, as eleições deste ano, realizadas com lisura, “dentro de princípios democráticos e éticos (…), têm sentido particularmente importante e promissor” para a superação “da crise institucional vigente”. E para evitar a “judicialização da política e a politização da Justiça”. Alerta para as fake news, “já presentes nesse período pré-eleitoral”.

Os bispos reconhecem a importância do voto, “embora este não esgote o exercício da cidadania”. E exortam a cidadania a “acompanhar os eleitos e participar efetivamente da construção de um país justo, ético e igualitário”.

Para a escolha consciente do(a) eleitor(a), a CNBB aponta critérios claros: 1- “conhecer e avaliar as propostas e a vida dos candidatos, identificando os interesses subjacentes a cada candidatura”; 2- não votar naqueles “que se rendem a uma economia que coloca o lucro acima de tudo e não assumem o bem comum como sua meta”; 3- não eleger “os que propõem e defendem ‘reformas’ que atentam contra a vida dos pobres e sua dignidade”; 4- não sufragar os “que se deixaram corromper pelo poder político e econômico (…) e que buscam foro privilegiado e outras vantagens”; 5- aprovar os que, buscando eleição ou reeleição, “honraram o exercício da política” e, como exorta o papa Francisco, “não se deixam intimidar pelos grandes poderes financeiros e midiáticos”.

Com a palavra (e o voto) Sua Excelência, o(a) eleitor(a).

Por Chico Alencar, professor de História, escritor e deputado federal (PSOL/RJ). Publicado originalmente no Jornal do Brasil.