Desde os bancos escolares aprendemos que 21 de abril, feriado nacional, é o “Dia de Tiradentes”.  Não há “grande personagem” mais conhecido.

Relembraremos a Conspiração Mineira e a execução de um dos seus líderes, Joaquim José da Silva Xavier. O de menor status social. Um Silva, um José, entre outros rebeldes, mais abastados (por isso foram poupados da pena capital). Todos militantes de um movimento. Que, reprimido com rigor máximo, ficou nas intenções de ruptura com Portugal.

Grandes vultos constituem o imaginário de construção da ideia de pátria. Mas idolatrá-los expressa uma concepção errada dos processos sociais, que vê neles papéis decisivos, “salvacionistas”.

Em pleno século XXI esse “sebastianismo” parece estar muito forte. Há um candidato à presidência – réu por apologia ao estupro e denunciado pelo Ministério Público por racismo – que é constantemente chamado de “mito”. Também no campo da esquerda ainda não nos livramos do “culto à personalidade”. Há quem chegue a teorizar, dizendo que num país com as dimensões geoculturais do nosso, e a pouca politização das massas, só um “condottière” carismático faz avançar a roda da História…

Bertolt Brecht (1898-1956), em ‘Galileu Galilei’, apresenta um diálogo atual entre o cientista acossado pela Inquisição e seu jovem secretário, que lhe pedia a entrega da própria vida para reafirmar suas convicções: “- Infeliz o país que não tem heróis – brada Andreas. Ao que Galileu rebate: – Não, Andreas, infeliz do país que precisa de heróis…”

O saudoso compositor Fernando Brant (1946-2015) compôs, junto com Tavinho Moura, uma linda canção, intitulada “Nosso herói”. Sua letra é um louvor ao construtor anônimo de todo processo histórico, o povo: “ah, quem será o herói/ dessa nossa história/ que vai tecer o amanhã?/ Quem será o herói/ quem será a força/ que a forca não pode calar?/ João e Maria que se dão bom dia?/ É dona Teresa que coloca a mesa?/ É o Valdemar que vai trabalhar/ É dona Das Dores que nos manda flores/ É o amigo Pedro que já não tem medo/ seu José que é de boa fé./ Quem será o herói?/ É quem faz cimento, quem carrega areia/ quem amassa o pão e ama a lua cheia/ Sabe que a chuva é pra molhar:/ João e Maria, Valdemar e Pedro/ João e Teresa que é nossa Das Dores/ Joaquim José da Silva Xavier/ Meu povo é meu herói…/ Ele é a força/ que a forca não pode calar!”

A canção popular expressa uma nova concepção da História, coletiva, das massas e movimentos. O “panteão de heróis da pátria” não abafará o fato de que somos, a um só tempo, protagonistas e produtos do processo sócio-histórico, do conflito de grupos e classes numa sociedade compartimentada. Marielle Franco (1980 – 2018), vítima da brutalidade dos dominantes, é reverenciada no seu martírio, mas ela própria indicou o caminho do anti-heroísmo: “eu sou porque nós somos” – repetia.

Por Chico Alencar, professor, escritor e deputado federal (PSOL/RJ)