Nada mais brutal que o premeditado assassinato de Marielle, de seu motorista Anderson, e o fuzilamento de cinco jovens em Maricá. O tempo passa – lá se vão 20 dias! – e ficamos sabendo, pelo O Globo de 1 de abril, que testemunhas oculares das barbáries sequer foram ouvidas. O jornalismo investigativo parece mais eficiente que a investigação policial.

Nada mais doloroso e letal do que atentados que destroem vidas, mas nessa escalada do ódio inscrevem-se outros fatos terríveis. No Pará, a Federação da Agricultura e Pecuária (FAEPA) – leia-se grandes proprietários rurais – lançou manifesto violento, difamando a freira assassinada Dorothy Stang, o bispo emérito do Xingu, d. Erwin Kraütler, o padre José Amaro, pároco em Anapu, histórico defensor dos pobres hoje preso e caluniado, o desembargador Gercino Filho, ex-ouvidor agrário nacional, e a própria CNBB, chamada de “Sindicato dos Bispos”.

Diz Mauro Lopes (blog Caminho pra Casa) que a nota dos ruralistas “é toda ela ‘costurada’ numa linguagem que evoca a Guerra Fria: padre Amaro é “subversivo que se traveste de religioso” e a CNBB tida como dominada por uma “ala esquerdista que pretende implantar no solo cristão deste país os espúrios credos marxistas”. Irmã Dorothy, reiteram os latifundiários, era “persona non grata que incitava a violência”, e, como d. Erwin, “suspeita de tráfico de armas” (!!!).

Na ascensão da indução à violência criminosa inscrevem-se os tiros nos ônibus da caravana de Lula, cuja melhor resposta é a apuração de quem fez. Divergência política ser resolvida à bala é coisa da República Velha, do Brasil coronelista – que persiste e recrudesce, pelo visto. Prenúncio do que pode ser a disputa eleitoral vindoura, revivendo as “eleições do cacete” do Império…

Na Via Sacra da Sexta da Paixão, em Roma, o papa Francisco, sensível às dores do mundo, falou sobre a “vergonha” diante de Cristo e dos condenados da terra: “vergonha de ter escolhido Barrabás e não a ti, o poder e não a ti, a aparência e não a ti, o deus dinheiro e não a ti! (…) Vergonha por tanta gente, até alguns de teus ministros, se deixarem enganar pela ambição e pela glória vã, perdendo a dignidade e o amor. Vergonha porque estamos deixando para os jovens um mundo fraturado por divisões e guerras, um mundo devorado pelo egoísmo, onde os pequenos, os doentes, os idosos são marginalizados”.

Mas Francisco falou também sobre esperança, destacando missionários (como Dorothy e Erwin) que “continuam a desafiar a consciência adormecida da humanidade, arriscando suas vidas para servir a Deus nos pobres descartados, nos migrantes, nos invisíveis, nos explorados, nos famintos e nos prisioneiros, exemplos vivos de generosidade no nosso mundo devorado pela lógica do lucro e do dinheiro fácil”.

Só na esperança, que tanto(a)s nos deixam como legado, podemos acreditar em humanidade nova. Apesar de tanta estupidez.

Por Chico Alencar, professor de História, escritor e deputado federal (PSOL/RJ).