A força do cristianismo, que aparece com visibilidade ritual nesses dias da Semana Santa – apesar do mundo cada vez mais dessacralizado –, reside na universalidade de sua dialética: tudo que nos cerca pulsa em vida, morte e ressurreição. Todos os seres viventes carregam, como nós, seus natais, cruzes e páscoas. Somos passagem, travessia!

A Ceia

O pão repartido na Última Ceia, primícia de todos os compartilhamentos que nos dão razão de existir, enfrentando o ‘pecado original’ do egocentrismo. O vinho, fruto da videira e do trabalho humano. Comunhão antecedida do que iguala: o gesto de lavar os pés, de se agachar, de reconhecer-se menor entre os menores, ainda que chamado de líder, rabi, guru, messias. O sentido maior da caminhada que suja os pés, agora renovados pela água, pelo generoso cuidado: servir, sem oprimir, mas também sem se deixar submeter.

A Prece

Após a ceia, Jesus se retira para orar. Não se dirigiu ao templo suntuoso, mas ao Jardim das Oliveiras, linda natureza cultivada por parceiras mãos humanas. Quando nos percebemos irmãos de tudo o que tem raízes, troncos e folhas, Deus chega mais fácil. Na prece, Jesus de Nazaré, filho de Maria e de José, revela toda sua humanidade: tem medo, se angustia. “Minha alma está triste até a morte”.

A Cruz

Toda morte nos interroga a respeito da vida. A cruz é atualizada nas vítimas da guerra, nos condenados da terra, nos chacinados covardemente, nos executados a sangue frio, nos que padecem nas doenças incuráveis, naqueles a quem é negado, cotidianamente, o pão, o teto, o trabalho, a escola, a escolha, a ternura e a oportunidade.

Sábado de silêncio

É preciso dar o brado da agonia, e o silêncio é necessário na visita ao nosso mundo interior, onde habitam nossos temores, onde choramos nossas perdas, onde rascunhamos a pergunta essencial para remover a lápide da descrença, da passividade, do alheamento: ‘existirmos, a que será que se destina?’. Só respondendo com a gramática do AMOR poderemos ver a superação das forças do nada e do não.

A Luz

Faça-se a luz! ‘Morte, onde está tua vitória?’. Aquela manhã perdida na história acontece todo dia, junto a nós: somos chamados à ressurreição, à Páscoa, que quer dizer passagem (ou pulo, no hebraico mais arcaico). ‘A alegria do Evangelho’, não por acaso nome da primeira encíclica do papa Francisco, está no anúncio da Boa Nova: o Amor há de vencer.”