Morto amado nunca mais para de morrer”, disse Mia Couto. A saudade é o sacramento daquele corpo que não mais veremos, da voz que não escutaremos, da lágrima que não rolará daqui em diante por aquele rosto. Nossos mortos queridos não cessam de morrer e nós deles fazemos memória: por eles semeamos. Tentando ser um pouco eles, prosseguimos.

Mas há outras mortes daqueles que já morreram. Nossa Marielle continua sendo morta pelos cultores do ódio, que não se contentam com sua brutal eliminação. Atualizam a abominável sanha de atribuir à vítima a culpa por seu próprio martírio.

Assassinam Marielle os que a caluniam, com o arsenal venal de mentiras.  A começar por aqueles ignaros que consideram que nascer e crescer em favela gera cumplicidade com quem as domina, despoticamente.

Matam Marielle outra vez os que querem manter na exclusão os que ela, por coerência de vida, sempre defendeu: os pobres, os marginalizados, os discriminados. Voz dos que não têm voz, Marielle teve a sua silenciada por representar, com dignidade, os invisibilizados.

Agridem Marielle os que, subitamente “sensibilizados” pela morte de tantos inocentes – foram 60 mil assassinatos no Brasil, ano passado! – reclamam do “alvoroço” em torno da sua. Má fé ou burrice, eles não sabem ou fingem desconhecer que Marielle fez de seu mandato estupidamente interrompido uma trincheira de solidariedade para com os anônimos eliminados pela violência. Inclusive policiais. Ela era uma representante eleita, e seu trucidamento atinge gravemente a democracia.

Tentam apagar Marielle os que, autoproclamados “sensatos”, repetem a idiotice do “não politizar” um crime… político, cometido pelos que se incomodam com as pautas defendidas por ela, que são as do seu partido, o PSOL. Não se trata de encher de bandeiras do PSOL as multidões consternadas com o duplo homicídio covarde, mas jamais esconder que ela era, sim, uma militante do nosso partido. E temos orgulho disso. E continuaremos sua luta.

Farão novos disparos contra Marielle os que, responsáveis pela investigação da trama diabólica não chegarem aos atiradores e mandantes. E não começarem a desmantelar os elos da parceria público-privada do crime, que é tão mais organizado quanto imbricado no aparato de Estado.

Há exato meio século, na mesma Cinelândia onde velamos Marielle e Anderson, ficamos em vigília em torno do corpo inerme do estudante Edson Luís, morto aos 18 anos por uma bala da PM que reprimia manifestação por “mais verbas para Educação e menos canhão”. Ásperos tempos, de ditadura assassina. O crime, que levantou multidões, inspirou Milton Nascimento: quem cala sobre teu corpo/consente na tua morte”.

Os assassinos profissionais de Marielle e Anderson ainda estão protegidos pelo manto da cumplicidade. Cabe a nós denunciar os que tentam matá-la novamente, e que vicejam em meio ao lixo da internet. Em memória de Marielle e de tantas vítimas dos covardes de dedos sujos nos gatilhos ou nos teclados, não nos calaremos. Não consentiremos, jamais.

Publicado originalmente no Jornal do Brasil. Por Chico Alencar, professor, escritor e deputado federal (PSOL/RJ).