Aos filiados, militantes e dirigentes do PSOL, a [email protected] que acompanham nosso mandato.

Um grande país eu espero do fundo da noite chegar” (Clube da Esquina 1, Milton Nascimento, Lô e Márcio Borges)

Missão, tarefa. Por formaçãoderivada da fé cristã e da análise social marxista, é assim que encaro os desafios que são colocados na minha já longa vida. Como método, a decisão coletiva, compartilhada. Esses foram os fundamentos para refletir sobre a honrosíssima cogitação do meu nome para disputar a presidência da República, feita por muitos do PSOL.

Em 16 de outubro, como prometera, apresentei à Executiva Nacional do partido e à querida e aguerrida bancada federal minha definição, declinando do convite. Jamais desistindo da luta, inclusive no plano institucional: por orientação da maioria que consultei, coloco meu nome à disposição do partido para a disputa de uma vaga no Senado.

O governo Temer – exterminador de direitos, coalizão de denunciados, fisiológicos, corruptos, devotos (sem votos) do Estado mínimo e do privatismo máximo – impõe luta e resistência aqui e agora. As eleições tinham que ser gerais e já, mas não houve mobilização suficiente para isso. É preciso, portanto, que nos preparemos para o embate eleitoral do ano que vem. Sem descuidar do hoje, pois os golpes nas frágeis conquistas democráticas são dados diariamente, em todos os campos da vida nacional.

As eleições ainda são o mais amplo aferidor da opinião popular sobre o projeto de país que se quer. Por isso, o condomínio do poder tenta aprofundar as regras restritivas, a fim de que as maiorias sociais não se tornem maiorias políticas. Esse é o sentido maior do “delimitar tudo onde está” e do “estancar a sangria” implementado pela casta política dominante. Para essa manutenção do status quo, para a recomposição das máquinas partidárias e para a perpetuação da gangsterização da política contribuem também, paradoxalmente, os “salvacionistas da moralidade seletiva”, que desmoralizam as necessárias investigações.

A democracia liberal-representativa, com suas eleições bienais (e quase banais), vive profunda crise de legitimidade. O derretimento partidário, o recrudescimento do patrimonialismo, os descaminhos trágicos de parte da esquerda para a promiscuidade público-privada, tudo isso coloca em risco nosso inconcluso processo de democratização. A esquerda, também por seus graves erros, sofreu uma derrota estratégica. A direita mais atrasada, protofascista, perdeu a timidez e espalha sua cultura do ódio, da truculência, da discriminação. A rude ignorância perdeu a modéstia e sua influência cresce, inclusive entre os jovens. Ovos da serpente!

O PSOL, mesmo em formação, precisa ser um polo de renovação da esquerda, de expressão das novas formas de fazer política, de ressignificação do socialismo, radicalmente democrático. Desde já, inclusive nas práticas internas de construção do partido. Reconheçamos que, em nossos 12 anos de existência, ainda não nos constituímos como reaglutinadores do progressismo e também não temos inserção popular suficiente, apesar da crescente presença de nossa militância em movimentos sociais. Nosso reconhecimento público deriva muito mais da atuação exemplar de nossas bancadas parlamentares (a da Câmara é a única com 100% de reconhecimento no Prêmio Congresso em Foco e no Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar-DIAP!), mas isso é insuficiente.

O Brasil vive uma crise de destino. Estão em questão o modelo econômico rentista e primário-exportador, o sistema político a soldo das grandes corporações, o padrão cultural inoculado de obscurantismo, a nossa rica biodiversidade agredida pela exploração sem limites.

Participar da disputa eleitoral exige conhecimento da realidade (mundial, nacional e local), entendimento do que é hoje a classe trabalhadora (com seu crescente “precariado”), como se dá no século XXI a luta de classes e a correlação de forças. Entrar na batalha eleitoral pede propostas, quadros qualificados, discurso e mobilização. A presença do PSOL nesse campo, apesar de nossas debilidades, é imprescindível.

Já estamos nos preparando: a plataforma vamosmudar.org.br tem feito debates importantes sobre a democratização da economia, da política, da cultura e de outros aspectos da vida social. Nosso mandato lança agora um livreto com as riquíssimas Iniciativas Populares de Lei sobre esses e outros temas, respaldadas pela fantástica cooperação entre os movimentos em luta e os setores da universidade comprometidos com a transformação do país. Portanto, há um alentado programa em gestação para superação do capitalismo monopolista, financista, excludente e autoritário, serviçal do deus-mercado. Programa que combina a pauta dos direitos econômicos e políticos com a ascendente pauta identitária, das afirmações da diversidade humana.

Candidatura presidencial própria o PSOL terá, certamente. Nomes que possam expressar o nosso acúmulo não faltam. Temos homens e mulheres que são alternativas potentes, criativas, aptas a representar a média das ideias partidárias a serem consolidadas na culminância do nosso processo congressual, em dezembro. Não podemos negligenciar a formação das chapas estaduais e das importantíssimas nominatas para os legislativos, cada vez mais empoderados – e dominados pela pequena e corrompida politicalha.

Reafirmo a minha disposição pela disputa “de risco” do Senado, com suas enormes dificuldades e seus desafios. A candidatura é majoritária e pode ser um dos vértices da adesão consciente à nossa legenda. Essa definição deriva do que os sucessivos círculos que consultei disseram: família e [email protected], assessoria, comunidade de fé, mundo da cultura, jornalistas que cobrem o Congresso, parlamentares do Rio e povo em geral (enquete por amostragem): quase 40 mil opiniões no Facebook (considerando as respostas aos comentários) e centenas de “votantes” de rua, no Centro do Rio. Na aferição, cerca de 60% optaram pela disputa do Senado (imagino que na perspectiva algo pragmática de tentar me manter no Parlamento), 30% pela presidência e 10% por outras opções (deputado federal mais uma vez, estadual, governador).

Alea jacta est! O fundamental é a construção coletiva, sem sectarismo e sem perda de princípios; firme, terna e fraterna. Nas lutas cotidianas e nas batalhas eleitorais, o PSOL é cada vez mais necessário. Em frente!

Vamos juntos,

Chico Alencar  –  Rio/Brasília, 24 de outubro de 2017

“Porque se chamavam homens também se chamavam sonhos, e sonhos não envelhecem” (Clube da Esquina 2, Milton Nascimento, Lô e Márcio Borges)